segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Poemas e texto de Giuseppe Ghiaroni


Beijo

Se o teu beijo doesse e torturasse,
transmitisse um veneno e uma doença,
inoculasse o gérmen da descrença
e destruísse a Fé que não renasce!

Se o teu beijo ferisse e condenasse,
fosse um pecado, um crime e uma sentença;
se eu te beijasse e, numa angústia imensa,
fosse ficando negro de uma face!

Se o teu beijo deixasse uma ferida
e meus lábios sangrassem toda a vida
e eu tombasse murchando sobre o pó...
Tu serias o horror de toda a gente!

Mas eu te ampararia docemente
e pediria, em troca, um beijo, um só!
Teus lábios beijaria com carinho tão brando
que de hoje há muito tempo irás verificando

que os beijos que te dou não se consomem
quando beijares algum conhecido
sentirás enrubescida
que foste beijada por um homem!

Pontos de Vista

Na minha infância, quando eu me excedia,
quando eu fazia alguma coisa errada,
se alguém ralhava, minha mãe dizia:
– Ele é criança , não entende nada!

Por dentro, eu ria satisfeito e mudo.
Eu era um homem, entendia tudo.

Hoje, que escrevo histórias e poemas,
e pareço ter tido algum estudo,
dizem quando me veem com meus problemas:
– Ele é um homem, ele entende tudo!

Por dentro, alma confusa e atarantada,
eu sou uma criança, não entendo nada!

Depois

Depois de ter tentado e conseguido,
depois de ter obtido e abandonado;
depois de ter seguido e ter chegado;
depois de ter chegado e prosseguido!

Depois de ter querido e ter amado;
depois de ter amado e ter perdido;
depois de ter lutado e ter vencido;
depois de ter vencido e fracassado!

Depois que o sonho comandou: “Avança!”
Depois que a vida ironizou: “Criança!”
Depois que idade sentenciou: “Jamais!”...

Depois de tudo que escarnece e exalta,
depois de tudo, quando nada falta,
depois de tudo, falta muito mais!

Reminiscências

As mulheres que amei sinceramente
e que sinceramente me iludiram
seguiram por aí, e felizmente,
não sei por onde nem com quem seguiram.

Não sei se sorrirão como sorriram
para meus olhos bons de adolescente,
mas nem eu vejo como antigamente
nem elas são como os meus olhos viram.

Só sei que as vi passar num passo esquivo,
não sei para que fim, por que motivo,
além do fato atroz de que passaram.

Nem sequer sei quais delas se perderam,
nem sei quais se casaram ou morreram.
Mas sei que todas elas me mataram!

Injustiça

Tu queres que eu te esqueça de repente,
que esqueça de repente os teus carinhos,
eu que te venho amando aos bocadinhos,
desde quanto te era indiferente!

Deixa-me ir esquecendo lentamente,
voltando aos poucos sobre os teus caminhos,
arrancando um a um os teus espinhos,
até ver uma estranha à minha frente.

Dá-me um beijo de menos cada dia,
inventando um pretexto que sorria,
de maneira que eu saiba sem saber.

Pois queres que eu te esqueça de repente,
e nem sei se uma vida é suficiente
para - mesmo aos pouquinhos - esquecer!

Previsão

Um dia, serás velho
Nesse dia, tu só terás os anos e o juízo
E andarás procurando o paraíso
Numa igreja qualquer da freguesia.

Terás a boca flácida, a mão fria
O olhar tão vago, o andar tão preciso
Que as mocinhas na idade do sorriso
Te lançarão sorrisos de ironia.

Mas disso tu não sofrerás
Porquanto ainda poderás causar espanto
Contando as glórias que tivestes aqui.

E contarás numa vaidade austera
Que num ano qualquer da nossa era
Uma ‘mulher’ morreu de amor por ti.

O monólogo das mãos


Para que servem as mãos? As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever....

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!

Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram. A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar.

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!

Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros. O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a força e o poder; empunha a espada a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes; da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.  Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.

O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com a s mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes. Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda, por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.

E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida. E as mãos dos amigos nos conduzem... E as mãos dos coveiros nos enterram!

*****


Giuseppe Artidoro Ghiaroni (Paraíba do Sul, 22 de fevereiro de 1919 – Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2008) foi um jornalista e poeta brasileiro.

De origem humilde, em sua juventude Ghiaroni foi aprendiz de ferreiro, ajudante de cozinha e office-boy. Ao mudar-se para a cidade do Rio de Janeiro, trabalhou como redator do "Suplemento Literário" e no jornal "A Noite", de onde passou para a Rádio Nacional (ambas as empresas ficavam no mesmo edifício, na Praça Mauá, centro do Rio) onde consagrou-se como cronista daquela emissora. Foi o autor de "Mãe", uma das novelas de maior sucesso da Rádio Nacional e que em 1948 foi transformada em filme (Mãe) com a direção de Teófilo de Barros Filho.

Radiofonizada por Giuseppe Ghiaroni e baseada no maior tema religioso e dramático da humanidade, “A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo” foi ao ar pela primeira vez em 27 de março de 1959, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo reuniu quase uma centena de artistas para fazer as vozes dos personagens bíblicos. O trabalho contava com a narração de Cesar Ladeira e a locução de Aurélio Andrade e Reinaldo Costa e participação de todo o então famoso cast de rádio-teatro da emissora. Anualmente era reproduzida em capítulos durante a Sexta-Feira da Semana Santa.

Ghiaroni foi ainda contratado da Rede Globo. Entre outros trabalhos, assessorou Chico Anysio na década de 1990, quando este produzia a "Escolinha do Professor Raimundo".


Ghiaroni na velhice


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