terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O carioca na visão de uma estrangeira



Cristo Redentor - Foto Veja Rio

Olhar estrangeiro

Priscilla Ann Goslin*

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Àqueles com que jamais vou me encontrar de novo cabe um “a gente se vê” ou um “te ligo”. Assim é o Rio, mermão. Valeu, beleza!

Vinte anos atrás, eu me aventurei a escrever um livro que ensinasse aos recém-chegados à Cidade Maravilhosa o jeito de ser dos cariocas. Para uma americana de ascendência finlandesa e nenhum samba no pé, era como traduzir o intraduzível – decodificar espírito dos habitantes da cidade mais incoerente da Via Láctea.

Na ocasião, ainda estagiária em carioquice, sofria de uma boa dose de ingenuidade. Pensava: “Será que serei banida?”. Não fui. Além do privilégio de morar na cidade de encantos mil, acabei sendo abraçada pelos mais roxos dos cariocas da gema nesta minha aventura insólita. Fiz o livro para os turistas, mas aí os cariocas começaram a rir.

– Cara, nunca reparei que balanço meu cabelo quando saio do mar... Pô, achava que todo mundo puxava conversa com estranhos na rua... Qual é, não são todos que saem pra night de chinelo de dedo?

É preciso um olhar estrangeiro para ver o que é vedado aos nativos.

Mas o que é ser carioca? Falou bem o nosso saudoso Vinicius de Moraes: “Ser carioca é, antes de mais nada, um estado de espírito”.

O espírito carioca é indomável e contagioso. Ninguém passa imune. Até os quadris mais desajeitados vão se soltando, sem falar da alma. Para o estrangeiro, ser carioca é retornar ao seu id primordial. É descartar as camadas de restrições autoimpostas pela moralidade anglo-saxã. Leveza pura. Sim, foram os franceses que criaram o termo joie de vivre, mas os cariocas aperfeiçoaram a arte.

Carioca vive com entusiasmo e uma espécie de otimismo ensolarado, capaz de apreciar a beleza nas pequenas coisas, convencido de que o universo é essencialmente uma entidade benigna. Enfim, a maior carioquice é achar natural deparar todos os dias com a beleza das paisagens. Ser carioca é amar a cidade incondicionalmente. E, quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio.

Pelo olhar de fora, o Rio de Janeiro transcende as cidades normais. Existe uma sinergia perfeita entre o habitante e seu meio. Todos os sentidos são alimentados pelo clima, pela música, pelo samba, pela comida, pelo futebol, pela praia, pelos sorrisos à toa, pela constante onda de bom humor que envolve a cidade. Ela te acolhe, te faz sentir bem com a vida. Para o estrangeiro, é uma atração visceral. Essa é a essência que faz da carioquice uma cultura divertida, diferente de tudo o mais.

Vim para o Rio pela primeira vez com 6 semanas de idade e, mesmo tendo passado muitos anos nos Estados Unidos, nunca mais me curei. Como a minha visão é suspeita, perguntei a um amigo britânico, Chistopher Pillitz, portenho de criação e fotógrafo com mais de oitenta países na mira de sua lente, qual era a sua cidade predileta. Resposta? Rio de Janeiro. Ele diz: “A vida do carioca é boa, mesmo que não seja”.

Infelizmente, nem um Maraca repleto de velas acesas para São Jorge é suficientemente poderoso para proteger o carioca, no seu dia a dia, do crescimento desordenado que vem transformando o sonho de Vinicius num inferno de Dante. Mas, olha só, cidade perfeita não existe. Carioca, eternamente otimista que é, prefere encarar os obstáculos à sua felicidade como um porém. O Baixo Gávea tá inundado? Duas horas parado num engarrafamento? Alvo de assalto naquela saidinha de banco? Calma, vai melhorar.

No decorrer destas duas décadas desde que escrevi meu livro, a cidade mudou bastante, mas o delicioso encanto e a eterna informalidade continuam intocadas. Como qualquer carioca, arrasto o chiado com orgulho. Já aprendi a chamar o garçom pelo nome e meus amigos de mermão. Encaro o “código secreto” do carioca numa boa. Sei que hora marcada no Rio é “por volta de”, e “tô chegando” significa que fulano está começando a pensar em se levantar do sofá. As frases “te ligo” e “a gente se vê” correm soltas para aqueles com quem jamais vou me encontra de novo.

Hoje, atribuo o que defino como minha esquizofrenia cultural à dicotomia criada pelo meu inerente sentido de ordem e minha fascinação pelo caos que só uma cidade trepidante como o Rio de Janeiro pode oferecer.

– Valeu, mermão, Beleza! Aparece lá em casa.

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*Pricilla Ann Goslin, americana de Minnesota, em quatro décadas de Rio se tornou Ph.D. em carioquice e escreveu o best-seller How to Be a Carioca.

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