terça-feira, 5 de abril de 2016

A Porto Alegre que eu vivi

Autor: Davi Castiel Menda



Solar dos Câmara, o casarão mais antigo de Porto Alegre, localizado na Rua Duque de Caxias, ao lado do Palácio Farroupilha. Cenário de reuniões e encontros políticos que marcaram a história do estado. Foi tombado pelo IPHAN em 1963.

A gurizada de hoje não sabe o que é. Fechou a Porto Alegre onde eu vivi. Sabe, guria! Saudades dos meus tempos de guri, quando éramos felizes… Os piás, espremidos nas calças curtas, e as meninas, nas suas saias pregueadas de sarja azul marinho, como mandava o uniforme escolar. Ah! As gurias do Sevigné, as gurias do Bom Conselho! Nós levávamos para a escola um punhado de bolachas Duchen, Crush, Marabá ou Grapete. Elas levavam Guaraná Caçula com bolacha Maria. As «patricinhas» da época, só consumiam bolachas Champagne.

Saudades das pandorgas que jamais conseguíamos empinar, pelo emaranhado de fios aéreos pendurados nos postes, das bolinhas de gude compradas no Armazém Liceu; brincávamos e jogávamos nos canteiros em frente às nossas casas, normalmente «às ganhas». Dos treinos no campinho na Borges com o Viaduto, com as bolas oficiais número cinco das Casas Cauduro. Do rapa/tira/deixa e bota, onde as figurinhas da vez mudavam de dono a todo o momento. Saudades das balas Brocoió, que só eram vendidas no Armazém do seu Antônio, na esquina da Luzitana com a Assis Brasil. Brocoió era um Popeye abrasileirado. Tinha Brocoió de tudo… Brocoió no Futebol. Brocoió Trapezista. Brocoió Médico. Brocoió Papai Noel era a mais difícil. Mas as que a gurizada mais gostava eram das balas Guri e Mocinho.

Aos domingos, faceiros, nos terninhos sob medida das Lojas Renner, íamos às matinais para assistir ao Tom e Jerry. As meninas, gabolas, enfeitadas em suas saias godê-ponche, fingiam que não nos viam. Nossos sapatos eram da Casa Clark. Piá nenhum admitia vestir o tal de brim-coringa-não-encolhe, aquele tecido azulão grosso, especialmente criado para ser usado como macacão, e que hoje adotou o nome de jeans e custam os olhos da cara. Nas festas, as meninas vestiam tafetá, veludo ou organdi suíço. Nós, ternos de casimira inglesa.

Alguns anos depois, as novidades: calça de tergal e camisa Volta ao Mundo. Pensando bem, naqueles tempos vestíamos melhor. Piás felizes chutando bola, descalços sobre as rosetas nos campinhos que existiam por toda a parte. Esse tempo acabou, assim como acabou a Cecília Louro, a Sloper, a Casa Valentim que mantinha em exposição as fotos de clientes-mirins-vips (tinha até foto do Nelson Menda!), a Vila de Bruxellas dos irmãos Castiel, a Casa das Sedas, a Ilha da Madeira, a Loja Safira dos Bensussan, A Grande Moda, a Casa Gavillon, a casa Yankee do Alberto Maya.

Não existe mais a Casa Victor (Andradas 1212), a Casa Rodrigues, a Casa Alberto, a Excelsior Modas e a Casa Michel na Luzitana, dos Magrisso, onde para abrir um crediário bastava o fio de bigode. Os shoppings liquidaram com a rua mais famosa da cidade, a Rua da Praia. A Casa Edith, acredite, ainda existe, mas não se ouve mais os gritos do Gurizada Medonha vendendo a megassena e a quina no escuro. E o lamento em blues da Maria Chorona (só para quem tem mais de 70), anunciando os jornais diários na esquina da General Câmara? E os bondes, onde estão os bondes?

Não há mais o cinema Marabá, o Central (que tinha até uma figura pitoresca nas suas imediações: um sheriff); o Guarani, o Imperial, o Ópera, o Cacique, o Apollo (tinha 1ª e 2ª classe), o Colombo, o Garibaldi com suas gostosas avant-première à meia noite dos sábados, o Coliseu, o Talia, o América e seus seriados intermináveis; o Carlos Gomes (onde trocávamos nossas figurinhas repetidas e gibis do Capitão Marvel e Vida Juvenil); o Avenida, o Castelo (matinês de três filmes!); o Continente, o Orfeu, o Astor, o Gioconda, o Baltimore no Bonfim; o Rex, o Rio Branco, o Roxy, o Rival, o Rosário e o Ritz.

O Capitólio, milagrosamente, escapou. Saudades do Rivoli (ex-Palermo), que passava os filmes proibidos da Brigitte Bardot, sonho e alegria dos jovens imberbes! Quem não lembra das matinês de domingo à tarde. Se você aprontava durante a semana, lá se ia a matinê de domingo. Era ficar na janela vendo os amigos passarem, com um monte de gibis embaixo do braço. Lembram quando o mocinho beijava a mocinha nos filmes? Todo mundo fazia barulho batendo com os pés no assoalho de madeira do cinema!

Saudades da Rua da Praia, das paqueras à tarde na frente do Krahe; do Hidrolytol, da turma do Rihan, das histórias fantásticas contadas pelo Jorge Rola (Foguinho, mesmo apelido de seu irmão, que foi treinador do Grêmio) e do Paulo Santana, quando ainda não era famoso. Do Bar do João, no Bonfim, que representou por muito tempo a cena cultural, não apenas dos «pardais» do bairro, mas de boa parte dos porto-alegrenses; da Casa Masson, nosso orgulho, a primeira loja do país a vender no crediário; do Bromberg, da Bomboniere Ópera, das massas e do ravioli do Spaguetilândia. Não funcionam mais os relógios da Masson e do Edifício do relógio. Saudades do pradinho dos Moinhos de Vento – localizado exatamente ali no Parcão, onde você faz suas caminhadas – e suas gloriosas histórias, que o tempo, aos poucos, vai apagando. O Bataclã não desfila mais com o seu terno branco e cravo vermelho na lapela pela Rua da Praia, oferecendo aos passantes o Conhaque São João da Barra.

Não há mais o Líder, o Urso Branco, barzinhos que recebiam gente do interior só para conhecer o que era sanduíche aberto. Não há mais as figurinhas do sabonete Eucalol. Será que ainda existe o Talco Ross? E o Rum Creosotado? E a Pomada Minâncora? E o Vinho Reconstituinte Silva Araújo? E o Regulador Xavier: número 1 excesso – número 2 escassez? E Antissardina (o segredo da beleza feminina)? E o Creme Rugol? E as Pílulas de Vida do Doutor Ross – fazem bem ao fígado de todos nós? Saudades do Força e Luz e do Nacional, que enriqueciam nossos campeonatos de futebol. Da fábrica de botões, lá nos altos do Caminho do Meio, onde comprávamos nossos puxadores para partidas memoráveis.

Fecharam as Farmácias Minerva e Carvalho, com suas prateleiras repletas de Cibalena, Veramon, Cafiaspirina, Glostora e Gumex. Fechou o Banco Agrícola e, a Caixa, já não usa mais o slogan «mão que economiza é mão que não pede» – pelo contrário, incentiva as pessoas a apostarem o que tem…

Não há mais a Churrascaria Florianópolis, onde toda – toda mesmo – colônia sefaradi almoçava aos domingos, não há mais o Bar Azul na Riachuelo; fechou o Bar Farroupilha do Zé e do Carlinhos, que legou ao país o sanduíche farroupilha, e que ficava a dois passos do Centro Hebraico. Nosso tempo se foi. Dele, resta o lamento, na poesia do curitibano Paulo Leminski: «Esta vida é uma viagem; pena eu estar só de passagem; dela, um alento: para quem viaja ao encontro do sol é sempre madrugada; de mim, o consolo: saudade, és a ressonância de uma cantiga sentida, que embalando a nossa infância, nos segue por toda a vida.» Porto Alegre dos bons tempos, que bom que eu te vivi!


(Do Blog El Djudio)


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