sexta-feira, 8 de abril de 2016

Como se forma um marginal


1° Ele, quase sempre, nasceu por falta de planejamento familiar. Não foi esperado, é apenas mais um numa família que não tinha condição afetiva, financeira, moral e religiosa para educá-lo num mundo cada vez mais competitivo.

2° Não foi devidamente instruído para a vida. Nunca teve ambição, propósito profissional e foi mal educado por seus pais, que também nunca tiveram educação.

2° Tudo que quis na vida conseguiu, apesar das dificuldades financeiras de seus pais, com facilidade. Quando quis tênis, teve tênis; quando quis um boné novo, teve o boné. No Natal, implorou e consegui um telefone celular. Fez tatuagens berrantes em seu corpo, tudo com a aprovação dos pais.

3° Na escola foi sempre um péssimo aluno: faltou, foi reprovado muitas vezes. Culpava a escola e seus professores. Dormia tarde da noite, acordava quase ao meio-dia. Nunca foi religioso, como seus pais. Dengoso, inseguro, mimado, querendo, mais tarde, ter tudo que achava que a vida devia lhe dar.

4° Mais tarde, quase adulto, vai andar em más companhias. Terá seguido um líder negativo. Vai experimentar drogas leves que algum “amigo” vai lhe oferecer. Um desses “amigos” vai lhe propor um trabalho leve, ficar na campana para um assalto leve, coisa boba, sem importância. Ele vai, vai ganhar uns trocados no mole, e vai perceber que é muito fácil conseguir dinheiro de otários, que somos nós, cidadãos de bem.

5° Em casa, ninguém estranha de como alguém, como seu filho, tem dinheiro, roupas novas e não estuda nem trabalha.

6° Depois, usando drogas mais pesadas, já armado com seu primeiro revólver, vai ter sonhos mais altos. Com uma companheira, do mesmo meio marginal dele, vai querer ter mais dinheiro e vai, também, ter filhos como seus pais o tiveram.

7° Drogado, nervoso, com o dedo no gatilho de uma arma sem manutenção, vai praticar um assalto, julgando que a vítima vai reagir, pratica seu primeiro assassinato.

8° Se ele um dia for preso, nada vai mudar na sua vida. Mesmo que tenha uma pena reduzida, vai se tornar mais um albergado, praticando assaltos de dia e dormindo numa prisão-albergue à noite.

9° Ele, que começou roubando celulares de mulheres em paradas de ônibus, depois roubando operários, que ainda sonham em ser cidadãos comuns, em coletivos da madrugada. Foi roubar carros, que é mais fácil, para trocar por drogas, que rendem muito mais.

10° Até que um dia, ele, levemente drogado, estressado e auto-suficiente, vai para mais ato meliante de sua vida. Num bar, ou restaurante, ou lotação, sem muito cuidado, pois ele já fez isso dezenas de vezes, no fundo do bar ou do lotação, alguém armado, precavido, vai atirar nele. Vai morrer de bobeira. Marginal não se aposenta, não sai do crime, não se recupera. Ele tem vida curta, pois a única que coisa fez em toda a sua pequena estada neste mundo, foi apropria-se de coisas que nunca lutou decentemente para consegui-las. Seu filho, provavelmente, irá pelo mesmo caminho...

P.S. Dei aulas, durante muitos anos, em uma escola pública de Porto Alegre. No diurno de 90 alunos, 90 iam até o final do ano. No noturno, com alunos mais velhos e desempregados, de 90 alunos, 30 iam até o final do ano. A maioria desistia por coisas banais: desinteresse, falta de ambição, vontade de ficar em casa sem fazer nada. Seriam presas fáceis para a marginalidade.


Texto de Nilo da Silva Moraes


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