domingo, 10 de abril de 2016

O crente e o descrente

O homem crente

Vinicius


O verdadeiro crente em tudo se revela.

No prazer é comedido, na dor é resignado.
Na alegria é expansivo, sem alarde; na tristeza é recolhido, sem reclamos.
Na saúde é temperante; na enfermidade é sofrido.
Na abastança é generoso; na pobreza é conformado.
No juízo próprio é severo; no juízo de outrem é indulgente.
No falar não é fátuo; no calar não é covarde.
Na sociedade é fraterno; na intimidade é afetuoso.
No dizer – Sim – é sincero; no dizer Não – é benigno.
No saber não se vangloria; no ignorar não dissimula.
Na promessa é fiel; no dever é reto.
Na paz é advertido; na luta é diligente.
Na prática do bem é altruísta; em recebê-lo é reconhecido.
Na fé é espiritual, na esperança é perseverante, no amor é puro, no querer é firme.
Nos sucessos da vida quer que sobre a sua vontade prevaleça a vontade de Deus.
É assim o verdadeiro crente: em tudo se revela.


O homem sem crença


O homem sem crença em tudo se revela.

No prazer é descomedido; na dor é insofrido.
Na alegria é exagerado; na tristeza é irritado.
Na saúde é intemperante; na enfermidade é desesperado.
Na abastança é egoísta; na pobreza é revoltado.
No juízo próprio é lisonjeiro; no juízo de outrem é temerário.
No falar é fátuo; no calar é covarde.
Na sociedade é hostil; na intimidade é intolerante.
No dizer – Sim – é afetado; no dizer – Não – é arrogante.
No saber se vangloria; no ignorar dissimula.
Na promessa é falso; no dever é falho.
Na paz é negligente; na luta é imprudente.
Quando faz o bem é interesseiro; quando recebe é ingrato.
Na fé é todo material, na esperança é todo inconstante; no amor é todo sensual, no querer é todo instável.
Nos sucessos da vida quer que sua vontade prevaleça sobre as demais, inclusive sobre a vontade suprema de Deus, cuja existência nega e cuja justiça desdenha.
É assim o homem ímpio: em tudo se revela.


(Do Almanaque do Correio do Povo – 1970)



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