sexta-feira, 22 de abril de 2016

O pássaro, o relógio, o espelho


Catulo da Paixão Cearense


Um pássaro engaiolado,
mestre de canto e harmonia,
disse a um relógio cansado
de tanto dar meio-dia:

– Relógio, isto não tem jeito!
Até parece chalaça!
Eu canto sem ter proveito
e tu trabalhas, de graça!

Queres ouvir um conselho?
Vê lá se é do teu agrado:

Tu te conservas parado,
eu fecho a minha garganta,
fazendo como esse espelho,
que não dá horas nem canta!

Eu já estou desencantado
de cantar sem resultado.


E disse o relógio: – Amigo,
o mesmo se dá comigo.
Mas o espelho disse: – Não!
Nenhum dos dois tem razão.

Nenhum pássaro gorjeia,
sem ter a barriga cheia.
Nenhum relógio tem vida
sem o sustento da corda,
que a corda é a sua comida.

Eu vivo neste abandono,
sem dar despesa ao meu dono.


Sem comer corda ou alpista,
Trabalho, e, nesta canseira,
estou sempre retratando,
pois, quer queira, quer não queira,
tenho de ser retratista!

E, desde que fui criado
e comecei a espelhar,
nunca vi um retratado,
que em mim se vindo mirar,
dissesse: – Muito obrigado
que é modo civilizado
de se pagar, sem pagar.



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