sexta-feira, 22 de abril de 2016

Os três grãos de milho




Certo mancebo, cuja infância venturosa fora o mimo dos pais, perdendo-os, achou-se só no mundo, sem amparo nem conselho, tendo, por haveres, as terras férteis dum sítio onde havia um paiol abarrotado de milho.

Julgando que nunca se esgotaria tamanha provisão deixou-se ficar em casa, a comer e a dormir, vendendo, a quem o buscava, o milho que herdara.

As terras abandonadas foram perdendo o viço e o mato, crescendo vigoroso, em pouco sufocou as sementeiras.

Uma manhã, ainda nos dias fartos, estava o soberbo e preguiçoso herdeiro a balançar-se na rede, quando um pobre homem passou pedindo esmola.

Era um desgraçado que habitava na vizinhança, tendo apenas uma choça e alguns palmos de terra.

O herdeiro, ouvindo a voz do pobre, longe de compadecer-se, sorriu e, por esmola, atirou-lhe, com desprezo, três grãos de milho.

Foi-se o pobre sem dizer palavra e o preguiçoso ficou-se a rir balançando-se na rede.

Correram tempos. Já o mato bravo chegava à casa e o rapaz, fiado sempre no paiol de milho, vivia descuidadamente, quando, recorrendo ao celeiro, achou-o vazio porque toda a provisão havia passado às mãos dos compradores.

Só então, compreendendo a sua miséria e sem ânimo de atirar-se ao trabalho, descorçoado, pôs-se a lamentar-se e chorava, quando viu chegar, em formoso cavalo, um homem forte e bem posto, que ao dar com ele em tão miserável condição, deteve o animal e perguntou:

– Que tendes? Por que assim vos lamentais?

– Morro à míngua! Soluçou o infeliz. Tinha um sítio fértil e as ervas más tomaram-no. Tinha um paiol abarrotado de milho e esgotou-se. Nada mais possuo.

– A culpa é vossa, disse o cavalheiro. Julgando que nunca acabaria a herança que tivestes de vossos pais, abandonastes a terra que, dantes, não negava frutos. Se vos não sentis com ânimo para cuidar do sítio, vendei-mo. A mim darão bom prêmio as terras que dizeis estéreis e, como pegam com o meu sítio, faz-me conta comprá-las para dilatar a minha lavoura. Entremos em ajuste.

E combinaram.

Justamente no dia em que o rapaz recebia do homem o preço estipulado, perguntou-lhe o comprador:

– Sabeis com que dinheiro vos pago? Com o que me deram os três grãos de milho que, desprezivelmente, me atirastes. Levei-os comigo e, como não tinha ferramenta, com as próprias mãos fiz uma cova na terra e a terra devolveu-me o depósito muitas vezes dobrado. Plantando os grãos que vieram, consegui um canteiro, deu-me o canteiro uma roça, deu-me a roça um campo e fui sempre trocando os lucros por novos benefícios: primeiro em sementes, depois em gado, depois em máquinas e hoje, com eles, adquiro as terras de onde saiu o capital modesto com que comecei a grangear fortuna.

Vede agora o que fiz com três grãos de milho e perseverança no trabalho e comparai com o que vos acontece, não obstante haverdes possuído terras vastas e um grande paiol atestado de cereal. Não soubestes aproveitar os bens que herdastes e, mais uma vez, com a vossa desgraça, fica confirmado que a fortuna, seja embora incontável, cede à miséria quando é mal dirigida.

O ouro foge por entre os dedos como a água e a terra é um cofre seguro e maravilhoso que restitui centuplicado o benefício que se lhe faz.

Sem mais dizer – e dissera o bastante – o lavrador deu as rédeas ao cavalo e foi-se.

Coelho Neto*


*Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 – Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor (cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo), político e professor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras onde foi o fundador da Cadeira número 2. Foi considerado o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", numa votação realizada em 1928 pela revista O Malho. 




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