sexta-feira, 29 de abril de 2016

Pequenos grandes golpes

Um jovem modelar


“Posso ser pobre e desgraçado,
mas nunca serei um mentiroso!”

Era um rapaz de uns dezoitos anos, simpático, com uma expressão terrivelmente triste, vestido com uma roupa velha, mas bem passadinha, limpinha, remendada. Via-se que tinha nascido em bom berço. Parecia uma criatura portadora de uma precoce tragédia, mas o que sempre trazia no bolso, com toda a certeza, era uma carta.

Tocava a campanhia e, quando abriam a porta, estendia a carta:

– Entregue-a à dona da casa, por favor.

– Da parte de quem?

– Ela sabe. Entregue-lhe.

O envelope estava sempre limpinho. Renovava-o todos os dias. A carta tornava a escrevê-la várias vezes por semana. E a carta dizia assim: “Ajude-me. Tenho um irmãozinho no Hospital das Clínicas e minha mãe no Pronto Socorro”.

Partia a alma. Ademais a carta estava bem escrita, com bom estilo, sem erros de ortografia. Brotava das suas linhas queixumes de dolorosa sinceridade.

Geralmente, a dona da casa, quando via o rapaz limpinho, digno, apresentável, era tomada de surpresa e o fazia entrar.

O jovem, com o chapéu numa mão e um lenço na outra, reforçava os conceitos da carta. Primeiramente, repetia:

– Tenho um irmãozinho no Hospital das Clínicas e minha mãe no Pronto Socorro.

E a seguir acrescentava:

– Tinha começado a carreira de advocacia, mas tive que abandoná-la. Que desgraça, senhora, que desgraça! Ainda não tenho vinte anos e a dor já bateu à minha porta. A senhora não imagina como sou desgraçado!

Dizia com toda a lentidão, as palavras, para que não ficasse na garganta nenhum “s”, nenhum “l”. O importante era impressionar como uma pessoa culta.

Até que um dia a vaca virou touro. A dona da casa meteu a cara na porta, olhou-o de cima a baixo, e metralhou-o:

– Não tem vergonha, jovem e vendendo saúde, andar pedindo esmola com um papel cheio de mentiras?

O rapaz armou o peito e olhou-a fixamente:

– A senhora me ofende no mais fundo dos meus sentimentos... porque posso ser pobre e desgraçado... porque é possível que não goste de trabalhar... mas mentiroso não sou!

Disse assim, deu meia volta e foi embora. A mulher ficou perplexa e chamou-o:

– Venha, conte-me... A gente nunca, sabe, compreende-me... Jure que disse a pura verdade!

– Juro-lhe pela minha mãe e meus irmãozinhos que digo a verdade. Que morram, se minto!

E não mentia. No Pronto Socorro, a mãe era chefe dos escritórios (Classe O, com penacho) e no Hospital das Clínicas tinha até dois irmãos, que tiravam um bom ordenado, um como porteiro e outro como eletricista, os quais, com as gorjetas e biscates, já tinham comprado automóvel e apartamento em prestações.

O golpe dos baralhos


Um malandro internacional chegou, há tempos, ao Rio, a bordo de um luxuoso navio, procedente da Europa. Trazia muitas malas com roupas de uso. Mas, revistando outras de aspecto mais velho e surrado, os guardas aduaneiros encontraram uma grande partida de baralhos. Tratava-se evidentemente de um contrabando, pois o passageiro não acusar a existência daquela mercadoria incorporada à sua bagagem e recusava-se, ao mesmo tempo, a pagar o imposto, aliás, pesadíssimo, que incide sobre material de jogo. Em resumo: os baralhos foram apreendidos e, depois do competente processo fiscal, foram vendidos em leilão. Comprou a valiosa partida um esperto negociante, que arrematou a mercadoria por vinte mil cruzeiros*, esperando revendê-la com um lucro fabuloso.

No dia seguinte, aparentando uma calma irritante, entrou no estabelecimento comercial do comprador dos baralhos, o seu primitivo dono. Queria falar em particular com o comerciante, pois desejava fazer-lhe uma vantajosa proposta.

– Quero comprar toda a partida de baralhos.

– Muito bem. E quanto me oferece?

– Dez mil cruzeiros.

– O senhor está maluco? Pois eu paguei vinte mil cruzeiros por esses baralhos e evidentemente valem muito mais...

– É um exagero de sua parte. Esses baralhos não valem nada. Sou muito camarada oferecendo-lhe dez mil cruzeiros para evitar-lhe um prejuízo maior...

– Como não vale nada, se não são de primeira qualidade?...

– Não valem nada, porque estão incompletos... Faltam-lhes os “reis de copas”, que estão comigo.

O comerciante, depois de abrir vários pacotes, verificou que, de fato, estavam todos desfalcados de uma carta que era exatamente o “rei de copas”.

Meia hora depois, o esperto negociante resolvia aceitar a proposta que lhe fazia o contrabandista, vendendo-lhe os baralhos pelos dez mil cruzeiros, convencido de que, nessa altura, estava fazendo um ótimo negócio...

*Cruzeiro era a moeda dos anos 50.

O supérfluo intermediário


José Benedito passara a noite em claro. Estava preocupadíssimo com um compromisso financeiro inadiável. Era um título bancário, com vencimento para aquele dia, mas o pior é que ele estava sem vintém. Pela manhã, extenuado, tomou um banho, para se refazer, vestiu-se e encheu-se de coragem para ir bater à porta de seu amigo Jerônimo, milionário e bem instalado na vida, o qual bem podia desapertá-lo.

– Vim cedo te procurar, prevalecendo-me da nossa velha amizade. E vim para tratar de um assunto muito desagradável e urgente: preciso que me emprestes, até sábado, dez mil cruzeiros. Pode ser ou está difícil?

– Evidentemente está difícil, mas os amigos são para sanar estas dificuldades. No momento, não tenho dez mil cruzeiros em caixa, mas te darei um cheque, que é a mesma coisa.

Assim, rapidamente, José Benedito foi atendido, retirou-se contente e agradecido, para ir saldar imediatamente o seu débito no banco.

Na sexta-feira, porém, Benedito estava novamente inquieto. É que ele promete devolver no sábado, a seu bom amigo Jerônimo, os dez mil cruzeiros, que lhe emprestara com tão boa vontade, e a verdade é que ele não tinha o dinheiro para devolver. E ele não podia faltar à sua palavra, nem desiludir um amigo de tantos anos, que o tinha atendido com tanta presteza e solicitude. No sábado, depois de uma noite atribulada, tomou pela manhã uma resolução heróica: foi à casa de outro amigo expondo-lhe a sua aflitiva situação e solicitando-lhe dez mil cruzeiros emprestados, impondo-se a condição de devolvê-lo até a próxima quarta-feira.  Atendido com incrível boa vontade pelo amigo, José Benedito correu como uma flecha para pagar os dez mil cruzeiros que devia a Jerônimo.

Na quarta-feira seguinte não dispondo de numerário para resgatar a dívida que contraíra com o outro amigo, Amarildo, José Benedito teve que voltar a pedir o dinheiro a Jerônimo. Mas no sábado seguinte, para pagar a Jerônimo, teve que recorrer outra vez a Amarildo. Durante meses, José Benedito viveu nessa agonia, correndo, aos sábados, ao escritório de Amarildo para pagar a Jerônimo e, às quartas-feiras, batendo à porta de Jerônimo para liquidar a dívida com Amarildo.

Numa festa da sociedade, numa noite, por acaso, José Benedito encontrou os dois amigos. Chamou-os à parte e revelou-lhes toda a sua tragédia:

– Todos os sábados vou apanhar dez contos com você, Amarildo, para pagar a você, Jerônimo; e todas as quartas vou buscar dez contos com você, Jerônimo, para pagar os dez contos devidos a você, Amarildo. Trata-se, como estão vendo, de uma dívida entre vocês dois e da qual eu sou simples intermediário, sem tirar nenhum proveito. Refletindo melhor sobre este assunto, resolvi retirar-me deste negócio, livre e desembaraçado, de maneira que, daqui por diante, vocês podem continuar a fazer esses pagamentos, às quartas e sábados, sem a minha inútil intervenção.

E dizendo isso, despediu-se afetuosamente dos amigos embasbacados para nunca mais aparecer...


(Histórias do livro “O Barão de Itararé apresenta o seu Almanhaque, 
de 1955)


O Barão por Edgar Vasques


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