quarta-feira, 18 de maio de 2016

A flor do corpo


Por Darcy Ribeiro



A bunda, meus amigos, é flor do corpo. Coitado de quem não a tem ou de quem a perdeu, desbundado. Ela cumpre altas funções heráldicas. Prescreveu a cauda, muito útil mas deselegante. Opera maravilhosamente como almofada belamente partida ao meio, que protege o cóccix. É também boa para castigar crianças e pra gente beliscar mulher. Tem, porém, ambos altos usos, de que falarei adiante. Um dos meus orgulhos maiores de brasileiro é que essa palavra é só nossa: b. u. n. d. a. Os portugas falam de traseiro, quartos, poto, nádegas, cu, expressões todas elas indignas do que há de mais belo e que caracteriza universalmente a mulher brasileira, tida em toda parte como heroicamente bunduda.

A expressão nos vem dos escravos hotenti, que são a gente mais bunduda desse mundo, e que falam a língua quibundo. No Brasil, ao apontar e distinguir uma negra diziam: “Olha lá aquela quibunda”. Daí a expressão africana se concentrou no essencial, e não só as hotentotes, mas todos os homens e mulheres bem providos de traseiros passaram a ser chamados bundudos. Não é maravilhoso termos uma expressão linguística só nossa para indicar a flor do corpo?

(In revista Bundas – 5 de julho de 1999)



Desenho de Paolo Serpieri





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