domingo, 22 de maio de 2016

Afinal, são coisas naturais.


Tinha uma letra linda quando escrevia á máquina.

Olhou a paisagem em redor e disse que nunca mais veria coisa igual. Estava diante do pelotão de fuzilamento.

Caiu do décimo andar e nem se feriu. Folhas de papel não se ferem.

Aumentou setenta por cento no ordenado de todos seus seiscentos e trinta e oito empregados. O aumento, aliás, tinha sido decretado no mês anterior.

Chorava lágrimas de crocodilo. Era natural, em se tratando de um jacaré.

Afinal, ficou livre das dores de cabeça. É bem verdade que só quando foi guilhotinado.

Estava em cima da cama a dois passos do local aonde ia, mas estava certo de que chegaria muitíssimo atrasado. Era um caramujo.

Saiu desolado, certo de que não há possibilidade de união entre as nações. Tinha estado nas Nações Unidas.

Era um “barman” e era um sábio. De madrugada, ao fechar o bar, recolhia bolsas, carteiras, lápis, canetas, guarda-chuvas e capas, deixadas pelos clientes, e murmurava apenas: “Coitados, é natural; bebem pra esquecer”.

Casou-se com uma mulher preguiçosa que o obrigou a ir viver com a sogra. É o que se chama juntar o inútil ao desagradável.

Aquilo, sim, era um menino pobre. Tão pobre que jamais subia à favela, porque achava aquele ambiente grã-fino demais para ele.

Sim, irmão, o dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro.

Dinheiro é o cartão de crédito do pobre.

Ah, essa falsa cultura!

Poligamia é uma espécie de ângulo eqüilátero.

Cavalheirismo são pequenas atitudes que um homem deve ter para com mulheres com quem não tem intimidade.

Quando não tinham o que fazer, Fernando e Isabel divertiam-se muito com os espetáculos da Inquisição.

Os poetas gregos só escreviam odisseias.

Os comunistas são democratas ou fascistas que não estão satisfeitos com isso.

Decalcomania é uma doidice que faz a gente viver copiando os outros.

Demagogo era um escravo grego famoso por tapear os patrões.

Chama-se de circuncisão uma porção de voltas que uma pessoa dá para falar em coisas maliciosas



(Do Pif-Paf, n° 2, de Millôr Fernandes)



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