quarta-feira, 18 de maio de 2016

Carta em versos de Noel Rosa



Noel Rosa por Bertoni

Noel Rosa, em tratamento de saúde em Belo Horizonte, Minas Gerais, manda desta cidade aquela que será a sua carta mais original e conhecida. O destinatário é Edgar Graça Mello. O assunto, a doença e o tratamento. A forma, poesia. Mas, a exemplo de muito do que Noel disse em seus sambas, uma poesia feita de ironias e simulações, o paciente chamando o médico de paciente e dizendo-lhe que está seguindo à risca as instruções, que se deita às nove horas, que abandonou o cigarro, que já apresenta melhoras. E não faltam duplos sentidos, como no verso “trepei de várias maneiras...”

“Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar.
Um abraço.
Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu preciso tempo, é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que eu mereço.
Assim sendo, vou passar a resumir as notícias que se referem à marcha do meu tratamento.
E, para amenizar as agruras que tal leitura oferece, resolvi fazer uso das quadras que se seguem:

Já apresento melhoras,
Pois levanto muito cedo
E... deitar às nove horas
Para mim, é um brinquedo!

A injeção me tortura
E muito medo me mete;
Mas... minha temperatura
Não passa de trinta e sete!

Nessas balanças mineiras
De variados estilos
Trepei de várias maneiras
E... pesei cinquenta quilos!

Deu resultado comum
O meu exame de urina.
Meu sangue: - noventa e um
Por cento de hemoglobina.

Creio que fiz muito mal
Em desprezar o cigarro:
Pois não há material
Pra meu exame de escarro!

Até agora, só isto.
Para o bem dos meus pulmões,
Eu nem brincando desisto
De seguir as instruções.

Que meu amigo Edgar
Arranque deste papel
O abraço que vai mandar
O seu amigo Noel.”


Do livro “Noel uma biografia”,
de João Máximo e Carlos Didier, Editora UnB*

*Livro proibido por familiares de uma das esposas de Noel Rosa.



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