quinta-feira, 19 de maio de 2016

Conceição? Eu me lembro muito bem...


O maior sucesso de Cauby Peixoto


(Cauby: 10.02.1931 – 15.05.2016)

Cera vez, já nos anos 80, Cauby Peixoto foi fazer um show no Maranhão. Terminando sua apresentação, quando já ia saindo, a mulher do governador segurou seu braço e ameaçou: “Onde é que você pensa que vai?” Ele respondeu: “O show já terminou.” Ela, insatisfeita, intimou: “Não terminou, não! Você não sai daqui sem cantar Conceição!” – desse jeito, como se fosse uma ordem. E assim, Cauby pode dizer que, pelo menos no Brasil, desde que lançou o famoso samba-canção de Dunga e Jair Amorim, em setembro de 1956, jamais deixou de cantá-lo num show sequer. O curioso é que o estouro de “Conceição” foi gradativo e, depois de ser lançada em 78 rpm, foi incluída como a terceira faixa do lado B de seu terceiro LP na Columbia, Você, a música e Cauby, editado logo a seguir.

“Conceição” também foi faixa escolhida para integrar o módulo musical em mais uma chanchada de cinema da época, no caso, Com água na boca, de J.B. Tanko, com acompanhamento do maestro Renato de Oliveira. A música aparecia no filme logo depois de Zezé Gonzaga cantar “Linda flor” (o mesmo samba-canção também conhecido como “Ai Ioiô”) maior sucesso da cantora – que na verdade foi o primeiro samba-canção brasileiro, de 1929, gravado inicialmente por Aracy Cortes, também atriz de teatro de revista. Pois, então, entrava Cauby fingindo tomar pinga na mesa de um bar, cujo cenário era ora de barracão num morro ora mais urbano, mostrando letreiros luminosos e insinuando uma mulher “da vida” nas esquinas.
...

Cauby não acha esse samba-canção tão horrível assim. Pelo contrário. “Feliz do cantor que tem uma Conceição no repertório”, defende sua musa. Analisando friamente, trata-se de um samba-canção com sabor bem moralista e religioso da época. Conta a história de uma moça ambiciosa que tentou largar sua vida pobre no morro e foi para a cidade, provavelmente, fazendo algumas concessões para conseguir alguma projeção. Seus planos não deram certo e ela desapareceu, com certeza envergonhada de voltar à vida do morro. Até porque, tão “mal-falada” na vizinhança, jamais voltaria a ser tratada como a Conceição de outrora. Acontece que a melodia do samba-canção servida de bandeja para que Cauby pudesse mostrar seus dotes vocais, com descidas aos graves e subidas aos agudos, acompanhando a sina da protagonista. Agora, tente imitá-lo cantado a letra...

Conceição?
Eu me lembro muito bem,
(Ela) Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem.
Foi então
Que lá em cima apareceu,
Alguém, que lhe disse a sorrir,
Que descendo à cidade, ela iria subir.
Se subiu,
Ninguém sabe, ninguém viu,
Pois, hoje, o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou.
Só eu sei
Que, tentando a subida, desceu.
E agora (ela) daria um milhão
Para ser outra vez Conceição.

Cantar “Conceição” é fácil, agora cantar bem, num tom mais alto, como o de Cauby, e saboreando palavras como “sonhaaaaar”, “pisooooou” e “Conceiçããão”, só mesmo Cauby. Tanto que suas amigas Dircinha Batista e Dolores Duran a regravaram em seus discos, ainda na década de 1950, mas, apesar de excelentes cantoras, a música desaparece em suas vozes. Não adianta, “Conceição” é de Cauby e ponto. Foi, de fato, seu único casamento com uma mulher que deu certo, realmente. (...)

Há ainda uma curiosidade sobre o samba-canção mais famoso de seu repertório. Sua história é baseada num problema pessoal que o compositor Dunga teve com sua mulher. Inicialmente, a canção foi oferecida ao cantor Sílvio Caldas, que não quis gravá-la a menos que se fizessem algumas modificações na letra. Jair não concordou e resolveu procurar Cauby. Nessa época, Cauby já morava – quando estava no Brasil – no Hotel Novo Mundo, no Catete. Na verdade, “Conceição”, segundo Cauby, foi feita apenas por Dunga. Jair Amorim entrou na parceria mais como divulgador da música.

“Um dia, saí da Rádio Nacional em direção ao Novo Mundo quando veio uma pessoa pegar no meu braço. Era o Jair Amorim. Eu disse: Agora não posso te atender, vamos marcar mais tarde na casa do Di Veras – que ficava próximo ao morro da Viúva. Quando o Di Veras ouviu, disse: Grava ontem. Mandou-me ir para casa, acordar às seis horas da manhã do dia seguinte e gravar o acetato. Não percebi nada de especial na música porque era tão desligado que só fazia o que ele queria”, confessa o cantor.


Cauby Peixoto em 1956 – ano em que gravou “Conceição”

 (Do livro “Bastidores – Cauby Peixoto 50 anos da voz do mito”,
de Rodrigo Faour, Editora Record)



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