segunda-feira, 11 de julho de 2016

A mentira


Luís Anton del Olmet*




Ontem decidi nunca mais mentir.

Acordei muito cedo, ansioso, por ir para meu trabalho. Na rua esbarrei com um amigo.

 Molestei-te?

 Bastante.

 És muito amável.

Pouco depois se aproximou de mim um mendigo.

 Uma esmola, pelo amor de Deus.

Eu lhe respondi claramente:

 Não quero. Poderia dizer-lhe que não tenho trocado, simplesmente que sou tão pobre quanto o senhor. Mas seria mentir. Tenho dinheiro. O que acontece é que não tenho vontade lhe dar esmola.

O pedinte ficou estupefato.

Depois o vi levantar seu garrote, e para não andar às pauladas com um barbudo, tive que fugir.

E por fim me vejo em minha repartição. E vejo-me depois ante um conflito enorme.

 Resolvi favoravelmente aquela informação de que falamos. Que lhe parece?

A pergunta não pode ser mais terminante. E é meu chefe quem exige resposta. E palavra, eu tenho um pobre conceito inconfessado de meu chefe. E como decidi não mentir, exclamo:

 Parece-me muito mal. Conheço o caso. Eu teria resolvido em contrário.

O chefe tira os óculos, consternado.

 Que diz o senhor? Ficou maluco? Atrever-se a dizer-me!... É um insolente, para não o qualificar pior.

Retiro-me. Em minha seção mantendo com meus colegas várias discussões e conquisto bruscas antipatias.

Há em minha seção uma espécie de açoite popular, que diz chistes. E naturalmente, perpetrou um, e como é lógico, abstive-me de rir. Alguém, assombrado, inquiriu:

 Ficaste sério... Não te fez rir a pilheria?

 Exagerando minha sinceridade, choraria. O cretinismo tem a virtude de tornar-se indiferente.

Há em minha seção um grã-fino. E o presumido veio esta manhã estreando uma gravata e um colete. Dirigem-lhe elogios. Eu estou calado. E alguém se aventura a pedir minha opinião.

 Parece um macaco fantasiado.

Há em minha seção um sedutor. Está contando uma bravata que cheira, como todas as suas, a embuste. Os demais, para lhe serem agradáveis, fingem acreditar. E eu, friamente, no uso de meu completo direito, movido por um sadio e exemplar estímulo de justiça, exclamo interrompendo-o:

 Tudo isso que você está contando é um sainete ridículo. Você não conquistou nem a sua porteira.

E não será preciso demonstrar como aquela repartição onde tão bons amigos tive, se transformou em cova de adversários.

Saio, volto à minha casa e almoço. A senhoria, mulher amável e comunicativa, aproxima-se de mim sorrindo e pergunta-me, como sempre:

 Gostou da comida?

 Achei-a simplesmente horrível. Nunca me atrevi a dizer-lho, mas é verdade. Simplesmente detestável.

 Pois dê o fora quando quiser. Grosseirão!

Para não brigar com a senhoria, criadas e demais fúrias, saio à rua.

No bonde um cidadão pisa-me o calinho. Antigamente, quando eu era um consumado embusteiro, responderia ao seu “queira desculpar” com um “de nada”. Mas como sou um homem franco replico:

 Não enxerga, não? Para que tem olhos na cara?

E então o parceiro fica por conta e diz-me uma dúzia de desaforos.

Entro na livraria. Um autor amigo aproxima-se e faz-me uma pergunta insolente:

 Que tal achou meu ultimo romance?

 Que sei eu!... É uma imbecilidade: sabe o amigo? Uma imbecilidade inofensiva. Por exemplo, as do senhor seu pai...

E o escritor pôs-se muito sério e exclamou com indignações sinceras:

 Desde já fique sabendo que vou mandar-lhe meus padrinhos. É duelo de morte. À pistola!

Vou a um café e me disponho a escrever duas cartas para comuns amigos que hão-de servir-me como padrinhos. O empregado me pergunta, solicito:

 Café?

 Quer dizer... chicória!

Trazem-me veneno e material para escrever. Mas ao iniciar minha primeira carta detenho-me perplexo. Permitiria minha sinceridade uma carta de fórmula embusteira como todas, cheia de hipocrisia? E escrevo: “Senhor alheio a qualquer consideração ou respeito: pouco entenderá destas questões, mas como não tenho melhor pessoa de que possa lançar mão, peço-lhe se dê à satisfação de figurar como padrinho num duelo que”... E prossigo nestes termos. Por fim termino assim: “Agradeça-me esta escolha, porque assim verá seu nome nos jornais. Toca-lhe a mão seu conhecido, que não o grama”...

Depois vou à casa de minha noiva.

 Amas-me?

 Um pouco.

 Só um pouco?

 Só. Tens alguns defeitos incorrigíveis.

Meu acento é lhano, confidencial. Mas a pequena, que tem da sinceridade um conceito arbitrário, desata a chorar convulsivamente. Sua mãe acode, rancorosa e trágica:

 Que foi?

 Apenas sua filha é uma histérica.

 Uma histérica? É você um paspalhão.

 E a senhora um estafermo. Saiba-o de uma vez.

Vou ao teatro. Como a peça me parece ruim, bato os pés. Acabo na delegacia.

E à noite, quando por fim me soltam e posso chegar a casa, recolho-me a meditar, e exclamo convencido:

 É preciso mentir. Talvez a existência não seja outra coisa senão uma humilde e piedosa mentira.



(Publicado na Folha da Manhã, domingo, 21 de agosto de 1949)



*Luis Antón del Olmet



(Bilbao, 1866 - Madrid, 1923)


Foi um dramaturgo, jornalista, político e escritor de língua castelhana.
Foi assassinado no ano de 1923. 


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