quinta-feira, 7 de julho de 2016

Consultório Sentimental



Antonio Maria (Recife, 17.03.1921 / Rio, 15.10.1964). Compositor (autor de Ninguém me ama), cronista, radialista, homem de TV. Entre 1950 e 1964, ele escreveu praticamente todos os dias nos jornais do Rio, algo próximo a 3 mil crônicas.

Consultório Sentimental foi uma das mais deliciosas invenções de Antonio Maria na sua atividade nos jornais. Na Última Hora, entre 1959 e 1961, No Diário da Noite, entre 1961 e 1962, e em O Jornal, até outubro de 1964, ele respondeu às cartas dos leitores. Muitas eram forjadas pelo próprio Maria, é claro. Mas a ideia surgiu quando, depois de lerem crônicas carregadas de situações sentimentais, alusões a adultérios e outras complicações da vida românticas, alguns leitores pegaram da pena e escreveram seriamente para o jornalista que tanto parecia entender do assunto. Queriam uma luz na escuridão da dúvida. Separar hoje o que chegou pelo correio e o que foi inventado na redação é impossível. E desnecessário. Importa saborear o humor que Maria conseguiu com aqueles textos curtinhos.

1) “Sr. Antonio Maria, meu namorado sua muito debaixo do braço”.

→ Só debaixo dos braços, Mariza? Divirta-se na área enxuta, que é a maior parte do seu namorado.


“Sr. Antonio Maria, é verdade que os casais se aproveitam da escuridão da boate?”

→ Muito. E levam os cinzeiros, as xícaras, os talheres e os guardanapos.


Reinaldo: "Sr. Antonio Maria, estou noivo há dois anos e só agora descobri que Berenice, minha noiva, só tem três dedos na mão esquerda.”  

→ Mas se ela tiver sete na mão direita dá no mesmo, Reinaldo. O negócio é ter dez dedos na hora de mostrar. Verifique e volte a escrever-me.


Jandira (São Luís): “Meu filho, Eleutério, veste-se mal, porque quem lhe escolhe as roupas é o pai”.

→ E o nome, foi a senhora quem escolheu?


Laís Pimenta (Rio): “E foi por isso, exclusivamente por isto, que abandonei o meu marido”.

→ O “exclusivamente por isto” a que se refere Laís foi o seguinte: o marido chegou em casa, despiu-se completamente, surrou a sogra, o sogro e trancou-se no quarto da empregada, com empregada e tudo, durante 72 horas.


Dalita: “Já me casei três vezes, e em nenhum dos meus maridos encontrei aquilo que eu esperava.”

→ Mas você procurou bem, Dalita? Em todos os bolsos?


Claúdia Rúbia: “Sou, enfim, uma mulher muito bonita. Que devo fazer para ingressar no cinema?”

→ Comprar a entrada. O fato de você ser bonita não quer dizer que entre de graça nos cinemas.


Carlota Rios: “Me garantiram que você não fala uma palavra em inglês – não acredito.”

→ Acredite, Carlota. A gente deve ser ignorante numa língua só.


Sinésio Carmo: “Minha mãe, uma senhora de 65 anos, vai operar o menisco. Terá que ficar longo tempo em repouso e...”

→ É claro, Sinésio, repouso absoluto. E jogar futebol, nem pensar.


Helena: “Estou espantada porque meu filho, de 15 anos, me contou que teve uma aventura com uma mulher. Disse que a conheceu, de volta do Rian, ali mesmo na calçada do cinema.”

→ Ficará ainda mais espantada quando o médico lhe mandar a conta. As moças da calçada do Rian são caríssimas.


Alfredo: “Queria ser uma pessoa que, quando passasse na rua, todo mundo olhasse, comentasse, apontasse.”

→ Você está querendo ser Martha Rocha*, não é, Alfredo?


Raul Bahia: “Além de ter feito todos os tratamentos modernos, agarrei-me a todos os santos, para deixar de beber. Cheguei a passar seis dias sem ingerir uma gota de álcool.”

→ E no sétimo dia descansou... não foi, Raul? Deus, quando fez o mundo, também foi assim.


Maria Félix (Nova Iguaçu): “Sou uma moça bonita e vivo metida neste buraco. Aqui, não serei nada. Queria e podia ser uma pessoa como a Norma Benguel e Conchita Mascarenhas.”

→ Você quer botar as pernas de fora, não é, Maria Félix? Pois se você acha que a mulher só é alguma coisa quando bota as pernas de fora, recorte este pedaço de jornal e procure, em meu nome, o empresário Carlos Machado. Antigamente, M.F., as moças de sua idade diziam: “Queria ser como Santa Terezinha e Santa Rita de Cássia.”


Paulino: “Minha mulher trabalha e ganha bastante. É ela que, praticamente, mantém a casa. Tenho uma enorme vergonha disto tudo.”

→ Não se deixe levar pela vergonha, Paulino. A vergonha é, no fundo, uma demonstração de vaidade.


Horácio Veiga (Contando um fracasso de amor); “Foi a mulher mais bonita que eu já vi. Consegui que ela me desse o número do telefone. Mas não consegui nunca ter nada com ela.”

→ Porque você, Horácio, fez as coisas ao contrário. Primeiro devia ter tido, com ela, isto que os homens chamam de “alguma coisa”. Depois, então, pedir-lhe-ia o número do telefone.


Maria Caldas: “Quero trabalhar, ser independente, mas ninguém me leva a sério, porque sou bonita. Cada dono de empresa a quem vou oferecer meus serviços, me convida para jantar e, depois, faz aquele outro convite que não preciso explicar.”

→ Maria, não estou insinuando que você deva aceitar um só ou dois convites. Mas, no caso de aceitar os dois, recomendo-lhe que deixe o jantar para depois.


Marietinha: “Meu marido teve uma briga muito feia com a minha mãe. Os dois se esbofetearam e se unharam. Minha situação é delicada. Não sei o que deva fazer, porque os três, desde o meu casamento, moramos juntos. De que lado devo ficar?”

→ Só você pode resolver, Marietinha, se deve mudar de mãe ou de marido. Ou de mãe e de marido. O principal é que você viva em felicidade.


Maria Lúcia: “Na época em que o senhor recomendava dietas pelo jornal, eu cheguei a perder 20 quilos. Meu marido, muito mais gordo que eu, perdeu 27. Quando o senhor parou, nós engordamos outra vez. Estamos mais gordos do que éramos antes.”

→ Maria Lúcia, você e seu marido devem continuar gordos. Para que fazer regimes tão cruéis? Comprem uma cama mais larga.


Cristina: “Sonhei com você e, no sonho, você estava de terno branco e gravata-borboleta.”

→ Não posso impedir que alguém sonhe comigo. Mas pedir que, quando sonhar outra vez, o meu terno não seja branco, posso.


RT: “Depois que calcei os sapatos foi que o moço me disse o preço: 3 mil cruzeiros. Só podia dispor, naquele dia, de 1.500. É um absurdo que nosso comércio etc.”

→ Meu caro, eu, se fosse você, teria comprado um pé e, quando tivesse mais 1.500 cruzeiros, compraria o outro. Queixar da alta de preços não adianta.


Armando Guedes (GB): “não sei como dizer à minha futura esposa que me faltam três dedos no pé esquerdo.”

→ Armando, Deus quando fez o homem cometeu alguns excessos. Os dedos dos pés, por exemplo. Por que e para que tantos? Dez, por quê? Não tem a menor utilidade e só trazem aborrecimentos, como calos, pisadelas e unhas encravadas. Hoje mesmo, quando estiver em casa de sua noiva, tire o sapato, a meia (pé esquerdo) e diga uma coisa mais ou menos assim: “Olhe aqui, esse negócio de dedo de pé é besteira. Aos pouquinhos eu estou mandando tirar.”


Lucienne François: “Estou gostando de um homem casado.”

→ Sabe, Lucienne? Recebo muitas cartas. Nunca houve alguém que me dissesse: “Estou gostando de um homem solteiro.”


Tião (GB): “Eu e minha mulher moramos com a minha sogra. Agora descobri que a minha cunhada está apaixonada por mim. Não é suposição minha e, sim, paixão declarada. Que devo fazer? Não quero que minha mulher saiba. Que ninguém saiba.”

→ Tião, você desse tamanho morando com a sogra? Arranje um empreguinho e mude-se para um apartamento seu, onde sua cunhada vá o menos possível. É preciso trabalhar, Tião. Não siga o exemplo do governador de sua cidade. Trabalhe, Tião.


Marietinha: “Tenho só 1,60 m e acho muito pouco.”

→ Você diz que tem 1,60 m, mas não explica, Marietinha, se é de altura. Se for de largura, é muito.


*Martha Rocha foi Mis Brasil nos anos 50.

(Frases do livro “Seja feliz e faça os outros felizes
– Crônicas de humor de Antonio Maria,
De Joaquim Ferreira dos Santos)



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