quinta-feira, 21 de julho de 2016

Flores para o Maragato




A Revolução Federalista de 1893 criou um santo em Quaraí. Louvado até hoje como Maragato, Euzébio Pereira foi um dos muitos degolados pelos defensores do governo de Júlio de Castilhos no final do século passado. Condenado a ser mais um rebelde anônimo, virou mártir depois de protagonizar uma cena histórica.

Em agosto de 1894, ele e seus companheiros combatiam os pica-paus dentro de uma trincheira. Encurralados perto do córrego, os maragatos começavam a ficar desesperados ao imaginar o fio da espada no pescoço.

Para não condenar os amigos, que tinham muitos filhos, Euzébio – pai de uma menina ‒ pegou todas as armas e deu cobertura à retirada dos aliados. Em seguida, foi dominado e teve a garganta cortada.

Em retribuição à bravura do revolucionário, os companheiros de Euzébio trataram de proteger Alexandra Trindade, sua mulher, e a filha Delmira. O local onde o combatente foi morto nunca mais ficou sem flores. Por ironia, a rua onde tudo aconteceu acabou recebendo o nome do algoz do Maragato: Júlio de Castilhos.*

ZH, 4 de dezembro de 1996


* Para acabar com essa questão de ficar na rua Júlio de Castilhos, quebraram um beco por ali, que se chama agora Beco do Maragato.


Acima, túmulo do Maragato, abaixo, a placa do túmulo: 

Fotos de Roberto Cohen.


(Do Blog Página do Gaúcho)


Beco do Maragato

Dagoberto Mendes

Em minha terra, Quarai, berço de Cyro Martins, a sangrenta “guerra de 93” fez seus mártires e monumentos: o túmulo do “Maragato” é, até hoje, respeitado com certa religiosidade e dá nome oficial a uma ruazinha da cidade, com algumas casas pobres, geralmente de camponeses empurrados para o povo, tema do romancista da trilogia do “gaúcho a pé”; a ele, pois dedico estes versos, pobres e simples como aquela gente.

No beco do maragato,
maragato degolaram...
Só ficou sua cabeça:
o corpo desapareceu!

Mas ficou preso à cabeça
pedaço de lenço rubro.

Maragato então virou
religião de gente pobre;
velas se lhe acenderam
por mãos que a noite ocultava.

Maragato virou lenda:
lenços vermelhos e fitas
e flores depositavam
homens e mulheres simples
junto à cruz, por oferenda.

Mas só a cruz restou plantada
no lugar onde a cabeça,
fora do corpo ficou
‒ para sempre separada...

Por piedade ou por promessa,
Um oratório ali foi feito.
(Picapau tira o chapéu,
se ali passa, por respeito!)

Muita moça solteirona
casamento agradeceu;
ao degolado do beco,
em apuros de honra ou jogo,
gente rica recorreu...

Contra doenças, contra pragas
de pessoas ou de bichos,
muita oferenda foi posta
à noite, junto do nicho.

Ninguém sabe o nome dele.
E quem soubesse calava
por juramento ou promessa,
pois quem reza por piedade,
ou por agradecimento,
o nome dele não sabe;
e se soubesse, calava!


(Do Almanaque do Correio do Povo de 1980)


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