segunda-feira, 4 de julho de 2016

Histórias de Paraquedistas XXV


Um inusitado acidente paraquedista

Em 13 de junho de 1955, o soldado Pedro Antônio Pestana, quando daria o seu primeiro salto de uma aeronave em voo, desenganchou-se no momento do salto, foi levado pelo restante da equipe, não acionando o paraquedas reserva.*

A circunstância determinante da morte – salto desenganchado – originou a criação e introdução do pino de travamento no gancho, que passou a ser conhecido como “Chipanique”, em homenagem ao seu idealizador, o hoje capitão Casemiro Scepaniuk, pioneiro 44, já falecido.

*  Fato citado no livro “Memória Histórica da Brigada de Infantaria Paraquedista”, do Cap Domingos Ferreira Gonçalves, Pqdt 2696 – do Turno do 1956/8 – MS 563.

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O coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, Pqdt 1412 do 1954/4 – MS 273, Prec 27, FE 12 e Comando 3, conta-nos uma interessante história, que está no livro “O coronel rompe o silêncio”, de Luiz Maklouf Carvalho:

– Já como capitão e instrutor do curso de paraquedismo, eu reprovei duas vezes um soldado da minha bateria de artilharia, o soldado Peçanha**. Ele chorou na minha frente. “Peçanha, eu estou te fazendo um bem. Você não tem condição psicológica pra saltar.” O exame final pro cara poder saltar de uma aeronave é uma torre de 12, 15 metros de altura. Você vai para a torre todo equipado como se estivesse no avião. É pior do que saltar do avião. Você salta conectado com um cabo de aço. O sargento joga o cabo. “Já!” O cara pula. Quando o Peçanha saltava, ele se abria todo. Já imaginou um cabo daquele enrolar no braço dele, como acontecia? Aconteceu uma vez com o chefe da Escola de Paraquedistas. O cabo pegou no joelho dele e dobrou ao contrário, o joelho virou para a frente. É uma coisa tremenda. Quebrou a perna dele no ar, e ele bateu no chão com aquela perna quebrada. O cara urrava de dor...



A torre do pavor

– E o Peçanha?

– Então, eu reprovei o Peçanha. Ele se matriculou novamente, dentro do regulamento, no curso de um capitão, meu companheiro. Ele veio falar comigo: “Você reprovou o Peçanha, mas dá pra ele saltar.” Eu disse; “Não faça isso, não leve o Peçanha pro salto.” Pois bem, ele levou. Por falta de sorte, eu estava de precursor, no dia, indo na equipe de terra. Conversava com o capitão Victório***, capelão, grande paraquedista. Ele sentado no capacete, no Gramacho. Então eu vi e disse: “Capelão, sai correndo lá, pra essa direção, que tem um cara que não abriu o paraquedas.” Ele vinha descendo. Era o Peçanha. Nós saímos correndo. No meio da carreira, eu senti aquele tremor da batida. O Gramacho era muito pouco. O cara bateu no chão do jeito que saltou. Quando eu cheguei, o braço dele era uma geleia, de tão quebrado que estava. Morreu na hora. Na queda livre, ele estava a 60 metros por segundo. É uma porrada. Quebra o cara todo. E houve várias outras coisas.

**   Nesse capítulo, o coronel denomina, erroneamente, o soldado Pestana, de Peçanha.

... Mas segundo relato do Cel Lício, ao transcrever do gravador para texto, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, autor do livro, colocou Peçanha em vez de Pestana, não sendo, portanto, erro de quem deu a entrevista, mas sim de quem transcreveu o fato que originou o livro citado acima.

...Gostaríamos de saber a versão do jornalista para saber quem, neste episódio, está com a razão.

*** Cap Victório Darós (Capelão paraquedista) → Pqdt 1542, do 1954/5 – MS 299,  gaúcho da cidade de Faxinal do Sorturno, RS, além da atividade religiosa e social que executava com grande eficiência e dedicação, foi o responsável pela documentação para casamento de grande número de militares e seus familiares.

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Adendo do Almanaque Cultural Brasileiro:

Para esse acidente há duas interpretações:

→ A primeira, que levou o Sgt Scepaniuk a inventar o pino de segurança, achando que o gancho, ao bater no final do cabo de ancoragem, abriu acidentalmente, não inflando o paraquedas do Sd Pestana (Peçanha), que, por estar apagado no ar, não abriu seu paraquedas reserva.

→ A segunda interpretação é que o Sd Pestana, por insucessos anteriores: reprovação de salto na torre e aconselhamento de que não tinha condição psicológica para saltar, no momento do seu primeiro salto, acordou para a sua realidade, tentando, no momento mais crucial de sua vida, abortar o seu salto na hora errada, desenganchando-se dentro do avião, no instante em que sua equipe saía pela porta, sendo levado de roldão por outros alunos, que também estavam dando seu primeiro salto.

Conclusão final:

De qualquer forma, ao presumir que o Sd Pestana tenha sofrido um acidente pela abertura do gancho que vai no cabo de ancoragem, Scepaniuk foi para o falso avião, na Área de Estágios, jogando várias vezes um falso cabo para o fundo do citado avião, até que um deles se abriu. Se isso acontecesse num salto real, e se o aluno fosse inexperiente, ele não teria lucidez suficiente para acionar o punho do seu paraquedas reserva, ocasionando, por isso, sua morte.


O falso avião onde Scepaniuk provou que
o gancho poderia abrir ao bater no fundo de uma aeronave.

Soldado Pedro Antônio Pestana, sua morte não foi em vão, pois, de maneira estranha, ela contribuiu para que fosse adotada uma norma de segurança no gancho da fita de abertura para que se salvassem vidas em possíveis acidentes num salto de paraquedas semiautomáticos.

A única pessoa que teve um contacto real com o Sd Pestana, que no livro acima citado é chamado de Peçanha, foi o então capitão Lício, em 1955, na Área de Estágios, quando o julgou incapaz de saltar de uma aeronave em voo. Hoje, sabemos que ele muito bem poderia ter se desenganchado na hora do salto, pelo juízo que capitão fazia das suas condições psicológicas. Mas o mistério das duas versões ficará para sempre no julgamento de todos nós, paraquedistas militares de todas as épocas.

Nilo da Silva Moraes



Acima, uma foto rara, do início dos anos 50, na ZL de Gramacho-RJ,
de um gancho sem pino de segurança.


Acima, o Cap Casemiro Scepaniuk. Pioneiro 44,
e, abaixo, o seu invento: o pino “Chipanique”,
a cordinha que evitava a abertura do gancho.


Nesta foto, à esquerda, o gancho no cabo de ancoragem,
a fita que vai extrair o velame da bolsa que está
às costas do paraquedista na rampa do avião.


Gancho no cabo, paraquedistas no espaço,
bolsas ao vento...


No cabo de ancoragem, um gancho ainda sem o Pino Chipanique


2 comentários:

  1. Jamais esqueceria o nome do Sd. Pestana. O Luiz Maklouf Carvalho, ao "traduzir" do gravador para o papel o que relatei, entendeu errado e colocou no livro Peçanha. O livro não tem valor, escrito por um comunista de carteitinha: deturpou tudo, retirou os assuntos mais importantes de meu relato, coisas, como sabemos, próprias de comunista...

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    1. Já colocamos no final do texto a devida correção, pois nos baseamos ao contido no livro. Gostaríamos de saber mais detalhes desse histórico acidente envolvendo um aluno do Curso Básico de Paraquedistas do Exército Brasileiro.

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