segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nem só de barata vive Kafka














Roberval, estranho moço das tardes do bar. Não falava: bebia. Não ficava bêbado, e, se ficava, ninguém via. Só escutava sem sorrir as histórias que tinham graça, sem se emocionar com a morte do nosso Jorge garçom, ontem, quando ele estava embaixo do chuveiro. O Fluminense perdeu um torcedor doente.

Roberval nem era Flamengo, nem Bangu, nem Olaria. Não gostava de futebol. Gostava do seu conhaque lento e de uma lida nas colunas de política do Jornal do Brasil. Também não comentava sobre ela.

Uma dia, Roberval se abriu com Augusto e contou que estava apaixonado por uma barata. Kafka, de novo? Roberval nada sabia sobre Kafka. Resolveu contar por contar ou estava em depressão depois que “ela” o deixara.

Tudo começou de maneira muito simples: chegou em casa naquele porre que só ele via e sabia. Sentou na poltrona, botou conhaque no copo e o copo na mesinha. Foi quando a barata se aproximou, suavemente, junto do copo, subindo e se equilibrando na sua borda, se espichando para alcançar a superfície do líquido. Provou, bebeu e voltou para a mesinha olhando para ele. Ficaram nesse namoro até o sono chegar. Quando acordou, a barata tinha ido embora. Roberval esperou ansiosamente o dia passar no trabalho. À noite foi ao bar e bebeu o que pôde, sempre olhando o relógio. Na hora exata do acontecimento que tanto o perturbara, foi para casa, serviu o conhaque e se debruçou na poltrona. Não demorou, a barata veio vagarosamente e foi se aproximando do copo. Ele ficou só observando. “Ela” fazia a mesma ginástica do dia anterior: subiu no copo, alcançou o líquido, bebeu e ficou de papo para o ar, olhando Roberval. E assim aconteceu durante muitas noites.

O namoro seguia firme quando uma desconfiança que podemos chamar de ciúme mordeu Roberval: “Será que era a mesma barata que o visitava todos os dias ou havia inúmeras baratas se revezando para beber o conhaque do otário?” Tentou descobrir comparando a barata de uma noite com a de outra. Concluiu que se elas se revezavam não dava para confiar no método da comparação, pois todas eram rigorosamente iguais. Lá pelas tantas, sentiu-se enganado e planejou vingança. Quando a barata estivesse bêbada e de pernas para o ar, iria matá-la com um punhal que ganhara de um amigo nordestino. Não teve coragem. Deixou que “ela” dormisse e resolveu adiar o plano para o dia seguinte. E assim fez, mas não a matou com punhal. Esperou que “ela” atingisse a borda do copo, empurrou-a e deixou que morresse afogada, tapando a boca do copo com a mão. Mas, quando a amada estava quase morrendo, a bondade de Roberval falou mais alto. Ele a retirou de dentro do copo, limpou seu corpo com cotonete e já pensava em fazer respiração boca a boca quando “ela” começou a mover as patinhas. Só então Roberval percebeu que faltava uma das patinhas, arrancada na ânsia de salvá-la. Chorou de remorso e adormeceu sem perceber que a amada havia ido embora.

A noite seguinte foi a mais longa espera pela amiga quase defunta. Olhava sobre a mesa a patinha decepada, e perguntou a todos os amigos se barata era como caranguejo cujas patas caem e outras nascem. Não havia hipótese. Encheu o copo de conhaque, encheu várias vezes o copo e nada. A noite já ia longe quando percebeu a chegada da amiga que, capengando, tentava subir a borda do copo. Ele a ajudou e resolveu que para “ela” seria mais fácil beber no pires. Todas as noites, na mesma hora, a barata chegava capengando em busca do conhaque, e a certeza de que “ela” era única enchia de prazer a alma de Roberval. Desde então passou a defender a honestidade das baratas, e dizia no Vilariño que, ao contrário das mulheres, todas são honestas. Nós pensávamos que Roberval estava pinel. Não estava: ficou no dia em que a barata não apareceu mais. Morreu afogado em conhaque sem ninguém que lhe trouxesse um cotonete para enxugar-lhe as mágoas. Sabe-se que outras baratas – amigas da amada ausente – visitam-no constantemente no seu túmulo.


(Do livro “À mesa do Vilariño”, de Fernando Lobo)




Nenhum comentário:

Postar um comentário