sexta-feira, 29 de julho de 2016

Os bichos da minha terra


(Aos Garotos de Bagé)

Adail Bittencourt

Sinto saudade dos bichos
Que habitam a minha terra.
Do touro chucro berrando
Pelas encostas da serra.

Do cavalo soberano,
Das ovelhas em rebanhos,
Da capivara malandra
Soltando gritos estranhos.

Do filósofo jumento
Que é intruso na manada,
A tocar saxofone
Para saudar a alvorada.

O notívago zorrilho,
O negrinho zombeteiro,
Que à noite caça os insetos
E fabrica água de cheiro...

Do lagarto sem-vergonha,
É comilão e guloso,
Que guasqueia a lexiguana
Pra comer mel saboroso;

Da mão-pelada matreira,
Colega do graxaim,
Que pra caçar as marrecas
Se arrasta pelo capim;

Da sorrateira raposa,
Que dorme durante o dia
E, na calada da noite,
Nos galinheiro se enfia;


Da lebre arisca, nervosa,
Saltitando pelo chão,
Entrando sem cerimônia,
Na lavoura de feijão.

Do tico-tico filante
Que anda sempre aos casais,
Rebuscando pelas eiras
O restolho dos cereais;

Da seriema arrebitada,
Barômetro original,
Em suas longas cantilenas
Anunciando o temporal;

Do quero-quero, o peãozito,
Que trabalha sem salário,
Cuidando todos os campos
Com zelo extraordinário;

Do alegre joão-de-barro
Que tira o barro do chão
Para erguer seu edifício
No esteio do galpão;

Da calhandra encantadora
E gatuna dos varais,
Que rouba a graxa do charque
 E vai cantar madrigais;

Posso afirmar a vocês
Que nem um bicho esqueci
Como é grande a variedade,
Não falo em todos aqui.


(Do Almanaque do Correio do Povo de 1972)

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