sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pipa Carioca



Meu caronista de oito anos nunca tinha visto uma pandorga de perto. Inspirado por algum desenho de televisão, creio, me perguntou outro dia:

‒ Tu sabes fazer pandorga?

Respondi de pronto:

‒ Sabia.

Até porque não havia internet e televisão quando eu tinha a idade dele. Fazíamos muitos dos nossos brinquedos: os carrinhos de madeira, a manivela para brincar de arquinho (que consistia em empurrar uma rodinha qualquer pela terra, impedindo que ela se desequilibrasse), os apetrechos do jogo de taco (o próprio bastão e as casinhas), os revólveres de madeira para o bangue-bangue de mentirinha. Os piões e as bolitas de gude não fabricávamos, pois requeriam mais indústrias do que dispúnhamos os nossos quintais, mas as regras das disputas eram de nossa lavra, acordadas entre todos e muitas vezes alteradas durante a competição.

Pandorga exigia mais engenho. Encontrar taquaras não era difícil na periferia onde eu morava. Depois, cortar as varetas e afinar até que se tornassem leves o suficiente para voar e resistentes para suportar o vento. Mais difícil era encontrar o papel adequado. Seda ou celofane, os melhores, eram raríssimos. Na maioria das vezes, usávamos papel de pão mesmo. Naquele tempo, o pão não vinha em sacos de supermercado. Vinha enrolado em papel branco.

Cortadas as varetas, amarravam-se em forma de cruz e puxava-se uma linha em volta da armação. Então, colocava-se sobre o papel para cortá-lo do tamanho certo, deixando-se a margem para colar em torno da linha – de preferência com cola feita com farinha de trigo ou polvilho e água. Furava-se cuidadosamente o espaço para a guia, onde seria amarrada a linha, e fazia-se mais uma guia pequena na outra extremidade, para a cauda da pandorga, que era feita invariavelmente de tiras de roupas velhas.

Nesse devaneio, prometi ao menino, sem muita certeza de cumprir, que iria conseguir uma pandorga para ele.

Pois não é que no dia seguinte encontrei um homem vendendo pipas. Era um senhor já de idade avançada, carioca da gema, que veio passar frio por aqui por razões que nem quis perguntar quando começou a me contar sua epopeia. Escolhi uma colorida, em forma de triângulo, com a vara central arqueada e aquele espaço vazio que os fazedores de pipa deixam na parte superior. Bem diferente das minhas pandorgas de antigamente.

O menino adorou. Agora, só falta conferir se sobe, se funciona com roncador e, principalmente, se dá para mandar um telegrama pela linha. Quero endereçá-lo ao país da infância.


(Nílson Souza no jornal Zero Hora)



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