domingo, 17 de julho de 2016

Restaurantes alemães do Rio


Com a 2ª Guerra, 
restaurantes alemães do Rio foram obrigados a trocar seus nomes.

Nos anos 40, ascensão de Hitler e rejeição dos cariocas marcaram
 bares Luiz, Brasil e Lagoa, hoje redutos da gastronomia.

Ana Paula Blower*

Casas tradicionais alemães do Rio tiveram que se adaptar aos momentos tensos vividos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com navios do Brasil afundados na costa do país por submarinos da Alemanha de Adolf Hitler, os ânimos se exaltaram aqui e símbolos germânicos atraíram a ira dos mais radicais. Por isso, mesmo sem relação com o regime nazista, os bares Lagoa, Luiz e Brasil se viram numa situação sem escolha a não ser mudar suas características. Após enfrentarem ações violentas de cariocas, os bares alteraram os nomes antigos. O Bar Luiz chegou também a pintar as paredes internas de bege e verde numa alusão às cores brasileiras. Hoje, apesar dos dias em que foram mal interpretados, resistem às mudanças urbanísticas da cidade e continuam agradando à clientela fiel.


Fundado em 1887, no Centro, o Bar Luiz, ao contrário do que muitos pensam, foi criado por um brasileiro, filho de suíços e natural de Petrópolis. Passando por dois endereços até se fixar na Rua da Carioca, chamava-se, na década de 40, Bar Adolph. O nome era em homenagem ao segundo proprietário, Adolph Rumjaneck, afilhado de Jacob Wending, primeiro dono. Em 1942, o estabelecimento quase foi destruído por estudantes do Colégio Pedro II, que não conheciam a origem do "Adolf" e logo atribuíram a Hitler. Mesmo que uma coisa não tivesse relação com a outra, como disse o escritor Antônio Houaiss em reportagem do GLOBO em 1987, ano do centenário do bar: “Em tempo de guerra, quem pensa em coincidência?”, indagou Houaiss. Armados de pedras e pedaços de entulho, os cerca de 200 jovens estavam determinados a vingar a honra brasileira depredando o local. Eles mudaram de ideia após intervenção de ninguém menos que Ary Barroso. De cima de uma cadeira, empunhando uma caldereta de chope escuro, o compositor mineiro de Ubá discursou em defesa do lugar que frequentava desde sua chegada ao Rio anos antes. No dia 28 de agosto de 1942, Ludwig Voit, proprietário na época do Bar Adolf, publicou anúncio no GLOBO em que dizia ao “bravo povo brasileiro” que “inteiramente solidário com a causa comum dos povos livres resolveu mudar o nome do Bar Adolf para Bar Luiz”. O dono fazia questão ainda de deixar claro que era austríaco de nascimento, em letras maiúsculas.


Reduto de boêmios na Rua Mem de Sá, no Centro, o Bar Brasil, fundado em 1907, era conhecido como “O alemão da Lapa” devido à nacionalidade do primeiro dono, Beutemuller, e pela grande quantidade de frequentadores altos, loiros e de olhos azuis. Ao comprar o restaurante da segunda geração de proprietários, o casal austríaco Felix e Gertrudes Sholler passou 110 dias escondido no andar superior do sobrado na Mem de Sá com medo das desconfianças políticas por parte dos brasileiros. Foi, então, que decidiram mudar definitivamente o nome da casa de Bar Zepellin para Bar Brasil, hoje considerado patrimônio cultural do Rio. A comida, no entanto, continuou a mesma: chucrute, kassler e salsichões.

Os garçons mal humorados e a vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas são marcas conhecidas dos frequentadores do Bar Lagoa. Nem todos, porém, conhecem a sua história de oito décadas atrás. Criado em 1934 como Bar Berlim, quando Ipanema e Leblon eram bairros remotos e quase inabitados, tornou-se Bar Lagoa 14 anos depois. Diante da comoção e da rejeição que o nome gerava, os donos do restaurante não titubearam. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra, em 1942, o local chegou a ser apedrejado por pessoas revoltadas com o bombardeamento dos navios brasileiros pelos alemães. Por conta da destruição e dos boatos de que ali era reduto de nazistas, o restaurante fechou por um tempo e reabriu como uma casa de chás chamada Shangrilá, tentando, assim, mudar a sua imagem negativa. Meses depois, em 1948, o "Lagoa" passou a preencher a placa em frente ao bar, substituindo o antigo nome.

Em 1987, o local passou por um momento crítico: discutia-se sua demolição. O problema foi solucionado graças aos clientes fiéis e ao sócio da família Grilo que se mobilizaram a favor da sua preservação. Em setembro daquele ano, iniciou-se um processo de tombamento, na gestão do prefeito Saturnino Braga. O então secretário de Cultura e cliente do bar, Antonio Pedro, também colaborou. Com decoração Art Decó preservada, o Bar Lagoa não nega suas origens e tem entre seus carros-chefes: kassler defumado com chucrute e salsichões guarnecido da tradicional salada de batata. Sem falar, claro, do chope, a bebida mais pedida da casa. Comprado recentemente pelo empresário Omar Peres, o Bar Lagoa, também considerado patrimônio cultural carioca, promete manter a tradição de um dos símbolos da boêmia carioca.

Já o Bar Luiz (também patrimônio cultural) enfrentou problemas por conta da especulação imobiliária dos últimos anos na região da Rua da Carioca. Em 2013, como mostrou reportagem do GLOBO, o valor do aluguel pago mensalmente pelo endereço praticamente dobrou, de R$ 16 mil para R$ 30 mil, de acordo com a Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca). Mesmo com as possíveis ordens de despejo, o local resiste com o tradicional chope gelado e a presença da clientela fiel. Com uma história que nasce lá no Rio Antigo, é referência de gastronomia e há muitos anos segue ganhando prêmios.

*com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBO





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