terça-feira, 5 de julho de 2016

Um tipo folclórico do Rio antigo



Dr. Jacarandá, um “causídico” de fraque, polaina e monóculo. 

Nas notícias de seu falecimento, ocorrido a 19 de julho de 1948, as quais, por ser ele “uma figura popular da cidade”, destacaram com foto, seu nome legítimo apareceu divergente. Numas deram-no como Manuel Vicente Alves Palmeira, noutras como Manuel Vicente Alves, apenas. Divergência sem nenhuma importância, pois acima de qualquer dos dois prevalecia a alcunha que ganhou e pela qual todos o tratavam. Era o Doutor Jacarandá, ou glosando a pronúncia de seu linguajar, o Dotô Jacarandá. Tido e havido como “causídico” que “impretava hábis córpis”, na “manitenção de possia”, requeria “sortura” e outros papéis de curso judicial.

Sem “papel passado”, sem ter penetrado em salas de qualquer aula de Direito, fez-se um autodidata audacioso, isento a chacotas, a gozações. Sem inibição, sentindo-se “adevogado”, visitava as varas, os cartórios, os tabelionatos. Trajando fraque preto bastante surrado, polainas e monóculo ostentava lampeiro um cravo vermelho na lapela e, logicamente, um anel em que a pedra vermelha alardeava seu “doutorado”. Percorria com amplo desembaraço o Foro da rua D. Manuel, onde conhecia toda a gente e até mesmo alguns magistrados. Sempre tratados por ele “sinhô dotô meretismo”, lhe davam atenção, embora com devidas reservas.

Circulando pelas ruas do Rio, desde 1904, quando aqui chegou vindo das Alagoas, onde nasceu em Palmeiras dos Índios, no ano de 1873, o preto Doutor Jacarandá, de vestimenta exótica, cabeleira branca, encarapinhada, com a ajuda de escrivães e funcionários do Foro, encaminhava papéis de rotina, tirava certidões. Não hesitou, assim, em avocar o doutorado. Um doutorado de araque, de motu proprio, que ele usava compenetrado, crente de sua validade. Chegou mesmo a montar um “escriptório” (com placa grafada corretamente) no 1° andar da rua do Núncio n° 33 onde atendia as “parties”, os seus clientes, dando-lhes conta da “marcha dos papé”.

Aceitando a galhofa que o cercava, doutor por achincalhe por convicção, chegou até a participar de carros de críticas nos préstimos carnavalescos. E foi nestes termos que os alunos da Escola de Engenharia fizeram-no, por unanimidade, “paraninfo perpétuo”. Distinção que, cheio de orgulho, desfrutava envaidecido. Do mesmo modo, não hesitou, em 1922, a se candidatar deputado e tornar pública sua plataforma na qual destacou que, sendo “inleito”, defenderia os “direitu das sinhora meretrizias”. Morreu pobre num leito do Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, aos 75 anos, e foi sepultado às expensas de seu filho José Januário que, vindo das Alagoas, lhe deu sepultura condigna no cemitério da estação Ricardo de Albuquerque.

Fazendo, principalmente, a advocacia criminal, a designada de “porta de xadrez”, tinha que visitar seus clientes em alguns distritos policiais e também na Casa de Detenção, o que lhe era permitido sem direito certo, mas por benevolência. Houve, porém, um diretor da Casa de Detenção, o dr Meira Lima, que determinou fosse proibida sua entrada naquele presídio com a prerrogativa que a lei concedia aos advogados verdadeiros, de fato. A aceitação do “doutorado” de Jacarandá, fora, em consequência, invalidada.

Não aceitando essa proibição, o “causídico”, tido e havido como tal, recorreu ao ministro da Justiça que, prontamente, em despacho lacônico, indeferiu o requerido. Assim, no Diário Oficial de 20 de janeiro de 1928, página 2.192, era publicado: “Manuel Alves Jacarandá: mantenho o ato do diretor, baseado no artigo 123 do regulamento em vigor”. Magoado com essa decisão, dias antes de seu falecimento, confiou-a a um jornalista, que o visitou no hospital. Nessa ocasião, o repórter, descrevendo sua figura, fixou assim o Jacarandá: “barba de conselheiro, bigode de comendador e pera de mosqueteiro”. Ostentava, ainda, mesmo de pijama, o monóculo.

O Globo, 20.07.77, 2° Caderno.

(Do livro “Meninos, eu vi”, de Jota Efegê)



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