segunda-feira, 18 de julho de 2016

Uma canção de premonição



Foi Ezra Pound quem disse que os poetas são a antena da raça. E quando se trata do poeta Vinicius de Moraes, põe antena nisso. Vinicius, de fato, fez jus a essa ideia, especialmente quando escreveu a letra de “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”. Posteriormente, muitas pessoas interpretaram essa música com uma canção de protesto e contestação ao golpe de 1964. Alguém chegou a dizer: “Vocês deram a resposta a eles, hein?” Na verdade, “Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais brincando feliz / E nos corações / Saudades e cinzas foi o que restou...” parece contestação. Só que os versos foram escritos em 1963, o que não qualifica a música como uma canção de protesto ao golpe de 1964. Seria, no máximo, uma canção de premonição.

Marcha da Quarta-feira de Cinzas

Música de Carlos Lyra e letra de Vinicius de Moraes


                          Acabou nosso carnaval,
Ninguém ouve cantar canções,
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou.

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê,
Que nem se sorri,
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando Cantigas de amor.

E no entanto é preciso cantar,
Mais que nunca é preciso cantar,
É preciso cantar e alegrar a cidade.

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar,
Todos vão sorrir,
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida Feliz a cantar.

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz,
Tanto amor para amar
de que a gente nem sabe.
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais,
Com a beleza dos velhos carnavais,
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz..


(Do livro “Eu & Bossa – Uma História da Bossa Nova”, de Carlos Lyra)


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