quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Momolândia



Não sei se vocês já leram ou ouviram alguma coisa sobre a Momolândia, um país que afundou no oceano Atlântico há milhares e milhares de anos. Ninguém sabe ao certo como seu povo foi dizimado. Entre os documentos encontrados no cofre de um banco arrombado, há um que fala sobre uma terrível epidemia chamada salarite minumis, que quase dizimou todo o seu povo – salvou-o o Rhum Creosotado.

Outra grave moléstia, que frequentemente atacava o sistema nervoso do momolandiano, era a chamada politicomielite, causadora da devastadora paralisia estatal. Mas a saúde do povo era uma preocupação constante das autoridades, que instituíram a “medicina de grupo”. Tanto que, pela manhã, ficavam grupos de doentes nas filas, esperando pelos médicos.

A justiça da Momolândia era implacável: quem cometia um crime era preso e assim ficava até o dia do julgamento, quando era posto em liberdade.

Na Momolândia, todos nasciam iguais perante a lei, mas esse problema eles conseguiram resolver. As leis proibiam também que os naturais da terra carregassem dinheiro – só os estrangeiros podiam carregar o dinheiro dos momolandianos. A poligamia era severamente proibida. Só era permitida a monogamia, regime no qual um homem podia ter várias esposas, sendo que, sua mesmo, só uma.

A fauna da Momolândia tinha apenas 25 bichos, que, à tarde, subiam pelos postes. Mas há uma lenda que fala num tipo de tubarão, perigosíssimo, que, em vez de viver no mar, vivia no comércio da terra.

Uma das maiores riquezas do país era o petróleo. Sua procura era uma verdadeira obsessão. Por isso havia enormes buracos em todas as ruas e em todas as estradas.

Apesar de ser um povo muito religioso, o momolandiano não frequentava as igrejas. Preferia rezar nos supermercados. Olhava para os preços super-remarcados e orava: “Ave Maria! Nossa Senhora! Meu Jesus! Santo Deus!”. A santa padroeira da Momolândia era a santa Paciência.

Engenheiros da Momolândia puseram em prática um engenhoso plano rodoviário: abriram uma grande estrada, no meio de uma densa floresta, para que as pessoas pudessem passar por ela de avião.

O momolandiano era um povo pacífico, de boa índole, nada vingativo. Quando alguém o explorava, ele não pagava na mesma moeda. Pagava em dólar. E era um povo muito sensível: quando encontrava uma galinha preta atravessada numa encruzilhada, acendia logo uma vela.

Tudo na Momolândia tinha um lado bom, a não ser as mulheres, que tinham dois. A educação é que era problema: as escolas caríssimas, o material escolar pela hora da morte. Basta dizer que o material escolar mais barato era o professor.

O solo da Momolândia era extremamente montanhoso, sendo que o monte mais importante era o monte Inflação, cujo pico era muito alto.

Na Momolândia, tanto o trânsito como os refrigerantes era engarrafados. Sendo o povo de espírito altamente inventivo, os momolandianos inventaram, entre outras coisas, o automóvel sem vaga, o telégrafo sem troco e o policiamento sem soldado. Cultivaram o diálogo: podia-se falar com qualquer pessoa, menos com o motorista, e nunca explicaram por quê. O problema da empregada doméstica não existia. Existia, sim, o problemas da patroa, que não achava empregada de jeito nenhum.

Afirmam os pesquisadores da Momolândia que, um dia, um rei, vindo de longe, resolveu decretar a abertura dos portos às nações amigas, permitindo assim a invasão de uísques, relógios, cigarros, perfumes, carros e filmes pornográficos, com graves prejuízos para a indústria do país.

Politicamente, a Momolândia era dividida em estados: estados menores e estados maiores. E o estado que mandava era sempre o Estado-Maior.

Diz a História que a Momolândia ficou independente no dia 7 de setembro de 1822. Mas isso é história...


(Texto de Max Nunes, no livro “Uma pulga na camisola”,
seleção e organização de Ruy Castro)




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