quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A vida


(uma enquete profissional)


Para os humoristas, a Vida não passa de uma boa piada.


Mas, o que pensam as pessoas de outras profissões a respeito da Vida? Consultei algumas e resultado foi esse:

L.C.F., alfaiate:

→ A Vida só dá pano pra manga. É a maior rasgação de seda que existe. Um dia tudo vai bem, no outro ela te bate o brim. Procurar um lugar ao sol é procurar uma agulha no palheiro. A vida não dá camisa a ninguém, amigo. Te deixa com as calças na mão anos a fio e no fim ainda te abotoa o paletó.

B.G.R., padeiro:

→ Que Vida, meu chapa! Estou aqui suando e comendo o pão que o Diabo amassou e você vem me falar de Vida? A Vida me deu um bolo quando eu nasci brasileiro. Agora tenho que sustentar o burro a pão–de-ló, lá em Brasília. E sem me queixar senão levo bolacha na cara. A Vida não é biscoito, meu chapa.

C.E.P. horticultor:

→ Ah, a Vida... É um tal de descascar um abacaxi atrás do outro... Gente nos mandando às favas por culpa do intermediário... O ICM te espinafrando... A mulher, que antes era uma uva, uma pele de pêssego, agora tá feia e me manda plantar batatas todas às noites... Ah, a Vida... Já foi um chuchu, mas embananaram tudo...

O.D.E., ferramenteiro:

→ Dá pá virada, moço, dá pá virada. É isso que a Vida tá. Parece que o mundo tem um parafuso frouxo. A gente senta pua no trabalho decente e não há recompensa. Tenta a boa fé e lá vem picaretagem. Em pouco tempo tá no prego, não é?

H.S., ourives:

→ Hum, a Vida... Olha eu acho que não adianta nascer em berço de ouro. Às vezes, a Vida te dá um caráter que não vale um níquel, e aí? Termina o senhor com um testa de ferro qualquer. Pra levar a Vida tá, não há prata da casa que aguente. Até seria joia se acabasse mais cedo

J.I.T., marceneiro:

→ Bom, com um cara de pau a Vida está salva. Claro, você pode ser honesto, ser pau para toda obra, etc. Só que tem um detalhe: os cavacos do ofício. Eles atrapalham a sua Vida de um jeito que não tem solução e você é obrigado a botar o pé na tábua. Ou baixar a lenha corajosamente. E te dou um conselho: quando vier de sarrafo, te manda. Resistir acaba em pijama de madeira.

W.V.N., bancário:

→ Vida com V maiúsculo? Não vale um tostão furado. É um cheque sem fundos. E tem mais: não tem compensação nunca, sabe? Faz cada uma que você tem que pagar na mesma moeda. Quanto mais sujeira te faz, mais você tem de dar o troco. O resto é saldo negativo.

S.R.S., fiscal do Instituto Nacional de Pesos e medidas:

→ A Vida ficou ruim pra mais de metro. Nunca dá um quilo certo! Todo mundo sabe que ela tem dois pesos e duas medidas, com a justiça, pode?

B.K.L., escritor:

→ Se a Vida não escrevesse certo por linhas tortas, até que gostaria falar dela. Ao pé da letra, a Vida não é mais do que um rascunho, um esboço. Vida, vírgula! É sempre bem concebida e, depois mal acabada. Roteiros, mesmo assim, eu desejaria uma reedição da Vida. Porque essa que estamos vivendo é apenas sinopse. E ponto final.

E.E., artista de circo:

→ Não fossem as acrobacias, a vida seria uma boa, não é? Mas não tem fim essa corda bamba. É tanta zebra, tanto amigo urso, que você banca o palhaço e tem que fazer mágica para manter o show. Tenho esperança de que a coisa mude, pois na lona não pode ficar.

U.S.D., consultor sentimental:

→ Estou de coração ferido com a Vida. Tenho a alma em pedaços. Meu orgulho está ferido.

M.Z.I., mestre-de-obra:

→ A Vida faz o que lhe dá na telha. Encosta todos contra a parede. Tira o colchão embaixo dos teus pés. E entra areia, não é?

J.L.O., farmacêutico:

→ Sim, eu acho a Vida uma droga mesmo dourando a pílula, não se pode engolir. É dose. Receita para melhorá-la? Se eu tivesse, seria uma injeção de ânimo em mim. Acredito que a Vida não passe de uma amostra grátis. O negócio é encontrar uma fórmula de ir levando, já que ela não tem remédio. Mas vamos parar com essa entrevista sobre a Vida que tá ficando xarope, tá?

Aí desistir: com pessimismo profissional não é possível.

*****

José Guaraci Fraga (1946). Punidos Venceremos.
Porto Alegre, Tchê, 1984.


Nascido em 1946, em Porto Alegre, Fraga foi bolsista e aluno interno no Colégio Cruzeiro do Sul. Como redator publicitário, atuou em agências de Porto Alegre e centro do país. Como jornalista, manteve coluna de humor nos principais jornais da capital gaúcha e colaborou com inúmeras publicações, locais e nacionais. O material reunido na retrospectiva foi antes publicado em O Pasquim, Exemplar, Zero Hora, Carrinho, Folha da Manhã, Diário de Notícias, Coojornal, Risco, Diário do Paraná, Ovelha Negra, Programa, Atenção!, Ficção, A Raposa, Pasquim 21, Bundas, Coletiva.net, JÁ, Solda Cáustico, Jornal Extra Classe, Revista Carta Capilé, Correio de Gravataí, Diário de Viamão, Diário de Cachoeirinha, Varanda Cultural, Twitter, Playboy, entre outros, de meados de 1971 ao início de 2015. Também organizou as coletâneas QI 14 e Antologia Brasileira de Humor, exposições coletivas com cartunistas gaúchos e nacionais como Humor nos Eixos (1977) e O Riso é Livro (2010).

Em 1980, publicou seu primeiro livro “Punidos Venceremos” e o segundo, Frasista, por assim dizer, que reúne 1.551 frases, lançado em 2016 – ambos pela Motriz Assuntos Gráficos, “quixotesca empresa” que mantém em parceria com Zimbres e Beto Abreu. O catálogo da exposição será lançado em álbum ainda este ano, primeiro sob demanda, depois, em edição comercial na Feira do Livro.

2 comentários:

  1. Olá, só nesta semana comecei a ler Punidos Venceremos e estou encantada. Agora quero saber, onde está o Fraga? Onde tem trabalho dele? Exposição?

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    1. Fraga está com 71 anos, mora em Porto Alegre e escreve periodicamente para o jornal Extra Classe.

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