segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A vítima da Serpente


Por Celito De Grandi


A capital gaúcha tem uma população ao redor de 70 mil habitantes no primeiro ano do século 20. Começa uma fase de industrialização na cidade. E de transformações em sua estrutura social.

Arraial dos Navegantes, Rua do Prado, n° 3. Endereço de Ottilia e Christiano Schimpf.

Ele é russo, marceneiro de profissão, tem emprego certo nas oficinas de Germano Steigleder Sobrinho, instaladas na Voluntários da Pátria. Na mesma rua, Franklin Bernardes tem uma loja de tecidos e miudezas.

Encantado por Ottilia, Franklin a assedia.

Por volta das 15h30min do dia 2 de julho de 1901, Ottilia mata Franklin com dois tiros de revólver, “em defesa da honra”. Na sala de sua casa.

Com as roupas rasgadas, sai em disparada pela porta dos fundos, grita por socorro, pede que avisem o marido.

Não demora e, antes de ser encontrado, o marido de Ottilia aparece na Rua do Prado. Vê a vizinha com as mãos na cabeça, cara de espanto, e pergunta:

- O que aconteceu?

Ela aponta para a casa dele.

- A Ottília matou um homem.

Natural de Rio Pardo, de origem alemã, casada há 11 anos, Ottilia, 31 anos, tem um filho de oito anos. Franklin, 29 anos, casado não faz muito, tem um filho de poucos meses. A viúva veio de uma família tradicional de Vacaria.

À polícia, Otilia revela detalhes.

Era assediada havia um ano. Nunca teve coragem de contar ao marido, porque ambos deviam favores a Franklin. Eram amigos. Até se hospedaram na casa dele, durante certo tempo.

Hoje, ela disse não mais uma vez. E ele ameaçou. Se não aceitasse na cama, ele mataria Christiano. Ela apanhou o revólver na gaveta de um aparador e atirou.

Porto Alegre se comove. Ottilia é um exemplo. Morre se preciso para defender o lar imaculado. E mata, também, se necessário.

Algumas esposas se mobilizam, é feita uma subscrição. Afinal, deve-se um mimo às virtudes de dona Ottilia. Uma santa.

O dramaturgo porto-alegrense João Alves Torres, sensibilizado pela honradez feminina, escreve uma peça de teatro, Ultraje.
  
Os investigadores não têm dificuldades para saber, com vizinhos e conhecidos, da intimidade de Ottilia e Franklin. Christiano viajava muito pela empresa, Franklin a visitava em casa, sempre que estava só, ou ela o ia buscar na loja. Franklin ainda era solteiro quando tudo começou, havia dois anos.

Ottilia não suporta o interrogatório e confessa. Sim, Franklin era seu amante. E justifica: porque não o queria mais, fez os disparos. A cidade, agora perturbada, volta-se contra ela. Todos estão solidários com Christiano. As vizinhas o consolam.

A polícia também descobre que, no dia anterior à morte de Franklin, o marido de Ottilia havia comprado um revólver. Por quê?

É o capítulo final.

Se todos na vizinhança sabiam, um dia Christiano também haveria de saber e Ottilia decide preveni-lo de que está sendo assediada por Franklin e que resiste, mas já não sabe o que fazer.

E arma a trama: vai avisar o dia e hora em que ele há de aparecer outra vez.

Assim foi.

Christiano deixa o emprego naquela tarde, esconde-se no quarto, a porta para a sala entreaberta. E quando Franklin entra e vai para os braços de Ottilia com a intenção de beijá-la, ele aperta o gatilho duas vezes.

Em alemão, ela sussurra ao pé do ouvido de Christiano, quando são levados pelos policiais para prestar depoimento, ainda naquela tarde:

- Vou assumir.

Era a culpada de tudo, queria ser presa e se penitenciar.

Ele ficou contrariado.

E, num novo depoimento, a honra fala mais alto. Ele confessa:

- Fui eu quem o matou.

No primeiro julgamento, Christiano e Ottilia são absolvidos. Há recurso da acusação. E o novo júri popular mantém a inocência do marido, mas Ottilia é condenada a quatro anos de prisão, por prevaricar.

Na sociedade machista da época, a decisão se justifica: nada era mais importante do que lavar a honra masculina.

João Alves Torres reescreve a peça de teatro. Uma nova história, com novo enredo e novo título: A vítima da serpente.

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Este texto sai no editorial de polícia de Zero Hora, todos os domingos
na coluna Boletim de Ocorrência, de Celito De Grandi.




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