sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Década perdida



Executivo 1 ‒ Investi, especulei, apliquei, corrompi, me esbaldei. Mas agora que estou rico sinto um vazio estranho assim no fundo da minha alma, lá no fundo do coração... sei lá... entende?

Executivo 2 ‒ Deixe de bobagem. Aproveite. Todos sabem que nós, os executivos financeiros, não temos alma, nem coração, essas bobagens metafísicas. E depois, devemos ver as coisas pelo lado positivo. Ser executivo no Brasil é ser otimista!

Executivo 1 ‒ Pois é, mas pra ganhar tanto dinheiro, criei milhares de inimizades, dilapidei fortunas alheias, criei desemprego, recessão. O Brasil vai ter outra década perdida!

Executivo 2 ‒ Veja pelo lado positivo, cara, se esta for mesmo outra década perdida a sua mulher não vai precisar fazer plástica tão cedo. Você pode alegar que se todos, inclusive ela, perderão 10 anos de suas vidas. Ninguém vai precisar de plástica. Ela que vive gastando com operação!... Pense só no que vai economizar de Pintanguy!*

O dois riem, trocam tapinhas nas costas, continuam andando ou voltam a fazer o que quer que estivessem fazendo antes.


*Quando ainda operava e estava vivo

Marco, na revista Bundas n° 4 – julho de 1999. 



Os abomináveis homens de gelo

‒ Você é técnico do Ministério da Fazenda?
‒ Sim.
‒ Sabia que a política econômica fez a minha pequena empresa falir?
‒ A quebradeira já era previsível.
‒ Me fez tirar os filhos da escola, perder o crédito, vender o carro...
‒ Esse aperto já era previsto.
‒ Hipotequei casa, empenhei jóias... até rádio-relógio eu vendi!
‒ Tudo isso já era previsto.
‒ Sou um homem à beira de um infarto!
‒ Bem... aí já não é da minha área! ‒ Tome o cartão de um técnico do Ministério da Saúde!

De um cartum do Angeli – em revista Bundas n° 8, de agosto de 1999.

Diálogo rápido
  

Amigo:

‒ Oi, Macedo! Como vai você?

‒ Mais ou menos... minha mulher me deixou, perdi o emprego, tive de hipotecar minha casa, entrei no cheque especial, não consegui pagar a hipoteca, perdi a casa, roubaram meu carro, meu seguro de saúde teve mensalidade atrasada, fui punido com perda de proteção e comecei a sentir os mais variados sintomas, estresse, cálculos nos rins, ciática, artrite, gota, unha encravada, vista cansada, torcicolo... resolvi, então, procurar um analista da linha freudiana-primal-yunguiana, que me aconselhou a sair de dentro de mim mesmo, olhar em volta... olhei. Vi mendigos, assaltantes, corruptos, traficantes, e, para culminar, vi Joaquim Roriz* na TV, “explicando” por que sua polícia mata e dizendo que acabou com o programa bolsa-família, criado por Cristóvão Buarque porque “os pais compravam cachaça com o dinheiro que recebiam”, entrei e depressão e...

Amigo:

‒ E no mais tudo bem?

*No tempo em que Roriz foi governador do Distrito Federal.

(Texto de uma charge de Claudius na revista Bundas, dezembro de 1999)

Patroa X Empregada


Patroa:

‒ Sebastiana! Esse jantar sai hoje?

‒ Sai não, Dona Charlotte. A inflação está de volta porque existe uma pressão especulativa em cima dos preços e como a senhora se recusa a aumentar o meu salário, não me interessa mais como empregadora, falô?

Patroa:

‒ A terceira via ainda nem foi asfaltada e já vêm essas domésticas emergentes ultrapassando os limites de velocidade.

(Texto de uma charge de Miguel Paiva na revista Bundas,
dezembro de 1999)

Inflação


Filho:

‒ A inflação desceu do telhado.

Mãe (correndo):

‒ Meu Deus! É sinal que o seu pai subiu no telhado!

(De uma charge de Nani na revista Bundas, dezembro 1999)




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