segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fábulas de Jô Soares


A raposa e as uvas


Passava certo dia uma raposa perto de uma videira. Apesar de normalmente nunca se alimentar de uvas, pois se trata de um animal carnívoro e não vegetariano, sua atenção foi chamada pela beleza dos cachos que reluziam ao sol. Fenômeno estranhíssimo, uma vez que, geralmente, toda fruta cultivada é revestida por uma fina camada protetora de inseticida e dificilmente pode refletir a luz solar com tal intensidade. Sendo curiosa e matreira, como toda raposa matreira e curiosa, aproximou-se para melhor observar a videira. Os cachos estavam colocados muito acima de sua cabeça, e o animal (sem insulto) não teve oportunidade de prová-los, mas, sendo grande conhecedor de frutas, bastou-lhe um olhar para perceber que as uvas não estavam maduras.

 Estão verdes ‒ disse a raposa, deixando estupefatos dois coelhos que estavam ali perto e que nunca tinham visto uma raposa falar.

Seu comentário foi ainda mais espantoso, uma vez que as uvas não eram do tipo moscatel e sim pequenininhas e pretas, podendo facilmente ser confundidas, à primeira vista, com jabuticabas. Note-se por este pequeno detalhe o profundo conhecimento que a raposa tinha de uvas, ao afirmar com convicção que apesar de pretas, elas eram verdes. Dito isto, afastou-se daquele local.

Horas depois, passa em frente à mesma videira outra Canis vulpes (nome mais sofisticado do mesmo bicho), mais alta do que a primeira. Sua cabeça alcança os cachos e ela os devora avidamente.

No dia seguinte ao frutífero festim, o pobre bicho acorda com lancinantes dores estomacais. Seu veterinário, chamado imediatamente, diagnostica uma intoxicação provocada por farta ingestão de uvas verdes.

Moral:

Nem todas as raposas são despeitadas.


O lobo e o cordeiro









Um pequeno cordeiro, bem desavisado, bebia água numa bica, calmo e relaxado. Um lobo aparecendo, não se sabe donde, já que numa cidade lobo não se esconde, a fim de devorar o cordeirinho amável, foi logo dizendo num tom desagradável:

‒ Porco, você está pondo a boca na torneira e isso para mim é uma tremenda sujeira. Depois eu estou a fim de beber desta água. Falo isso no duro, sem raiva e sem mágoa.

Foi a vez de o cordeiro acanhado dizer:

‒ Seu lobo, eu não estou pondo a boca pra beber e mesmo que assim fosse, como o senhor pensa, informo que não tenho nenhuma doença.

‒ Pode ser ‒ disse o lobo. ‒ Mas ontem no morro, teu pai disse que eu era um lobo cachorro.

‒ O senhor se enganou ‒ disse o outro assustado. ‒ O meu pai faleceu já no ano passado.

‒ Então foi tua mãe ‒ disse o lobo gritando, e o cordeiro falou quase desculpando:

‒ Eu garanto. Mamãe? É impossível, coitada. Teve enfarte e morreu quando foi tosquiada.

Respondeu o tal lobo sem titubear:

‒ Bom, não interessa! Só sei que vou te jantar!

Pegou o cordeirinho nervoso e aflito, preparou pro jantar e comeu ele frito.

Moral:

Mesmo nas mais agitadas megalópoles, onde às vezes falta água, 
o lobo come o cordeirinho.


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