segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Histórias de outro samba


(Três versões para a criação de um samba famoso de Noel Rosa)




“Foi lá por 1936, 1937. Estávamos num cabaré da Lapa, eu e o Djalma Ferreira, quando Noel entrou, veio até nossa mesa, sentou-se, pediu uma cerveja. Começamos a conversar. Lá pelas tantas, uma das dançarinas aproximou-se dele pelas costa, tapou-lhe os olhos com as duas mãos e disse: “Adivinha quem é”. Noel citou dois ou três nomes, mas nenhum era o da dançarina. Ela então se pôs de pé diante dele: “Sou eu”, disse. Mas Noel simplesmente não a reconheceu. Desculpou-se muito, mas não se lembrava de tê-la visto antes. A moça, desapontada, tentou reavivar-lhe a memória: “Não se lembra daquela festa de São João? No ano passado... Nós saímos às escondidas, fugindo dos outros convidados...” Noel começou a se lembrar. Havia saído da festa com a moça, foram para um terreno baldio, um hotel, sei lá. Ele tinha sido o primeiro. Agora, a moça estava ali, na nossa frente, uma dançarina de cabaré. Noel ficou visivelmente perturbado: “Sim, claro, eu me lembro...” A moça se afastou e ele começou a escrever alguma coisa na toalha da mesa. Pediu mais uma cerveja, mais outra. Quando saímos, notamos que ele estava transfigurado, o pensamento longe. Pois bem, dias depois eu voltei ao cabaré. O garçom que nos servia perguntou: “Cadê o Noel? Eu queria dar a ele esta toalha. Tem uns versos escritos. Será que ele não vai precisar? Tomei a toalha nas mãos. Ali estava, inteirinha, a letra de Último Desejo.”

Cyro de Souza

“Sempre demos grandes festas de São João em nossa casa. Era assim que a gente comemorava os aniversários de Heloisa, minha irmã. Noel não perdia uma. Naquele ano, estava um pouco triste, jururu. Ofereci-lhe um prato de canjica. Ele aceitou, mas pediu-me que levasse para o quarto dos fundos, onde ninguém pudesse vê-lo. Noel era muito feio comendo, raramente fazia uma refeição na frente de estranhos. Mas nós éramos como gente da casa, da família. Terminada a canjica, pegou o violão e começou a tirar alguma coisa. Me pediu que lhe trouxesse lápis e papel para anotar a letra de um samba que acabava de lhe vir à cabeça. Era o Último Desejo.

Theodorica dos Santos Lima, Dorica

“Em fins de 1936, encontrei o Noel no Programa Casé. Já estava muito magro, doente. Ficamos conversando sobre música. Ele me disse:
– Engraçado, Floriano, a gente se conhece há tanto tempo, já fez tanta serenata, nos encontramos em tantos lugares, e, no entanto, você nunca gravou nada meu. Sabe de uma coisa? Acho que tenho aqui um samba que casa muito bem com teu jeito de cantar.
Sempre cantei no estilo do Sílvio Caldas, um repertório mais romântico de valsas-canções, serestas, sambas dolentes. Noel me mostrou então o tal samba que casava com meu estilo de cantar. Era simplesmente o Último Desejo. Sabe o que eu disse a ele?
– Muito bonito, Noel, mas não é bem o meu gênero.
Até hoje não me perdoo.”

Floriano da Costa Belham.

(Do livro “Noel uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier)

Último Desejo

Noel Rosa

Nosso amor, que eu não esqueço,
E que teve o seu começo
Numa festa de São João.

Morre hoje sem foguete,
Sem retrato e sem bilhete,
Sem luar, sem violão.

Perto de você me calo,
Tudo penso e nada falo,
Tenho medo de chorar.

Nunca mais quero o seu beijo,
Mas meu último desejo,
Você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não.

Diga que você me adora,
Que você lamenta e chora
A nossa separação.

Às pessoas que eu detesto,
Diga sempre que eu não presto,
Que meu lar é o botequim.

Que eu arruinei sua vida,
Que eu não mereço a comida,
Que você pagou pra mim.



Ceci

Com este samba, Noel despediu-se de Ceci. Toda a amargura provocada pelo amor fracassado aparece nesta obra tão endereçada à “dama do cabaré’’ que ele pediu ao parceiro 'Vadico’ que entregasse a letra a ela. Segundo contou Ceci ao jornalista, crítico e historiador Ary Vasconcelos, numa entrevista para a revista 'Fairplay’, ela recebeu a letra junto com a notícia da morte de Noel Rosa. João Máximo e Carlos Didier contam que, ao entregar a letra, Vadico comentou: “Acho que ele te castiga um pouco neste samba, Ceci.’’ É provável que Ceci tenha-se sentido castigada, mas Noel contribui, sem dúvida, para mais uma obra-prima da música popular brasileira.

Este clássico de Noel alimentou, durante muitos anos, a rivalidade entre as cantoras Araci de Almeida e Marília Batista, ambas defendendo a posição de intérprete preferida de Noel Rosa. Segundo Marília Batista, a verdadeira versão de Último Desejo é a gravada por ela e não a de Araci, gravada em 1937, quando o compositor ainda vivia. Marília dizia ter aprendido a música com o próprio Noel e, além disso, a sua versão coincide com a partitura que o autor ditou para que Vadico escrevesse. A verdade, porém, é que a música foi consagrada na versão apresentada por Araci de Almeida.


A história do encontro de Noel Rosa com Ceci na Lapa

Álvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

 Em meados dos anos 30, Noel Rosa, assim como a massa do samba, não era assíduo no bairro das quatro letras. Para as farras, o lugar preferido era o Mangue, de ambiente mais popular. Mas foi num cabaré da Lapa, o Apollo, que Noel conheceu Ceci, o grande amor da sua vida.

Em homenagem ao compositor na época já um grande cartaz da música popular foi organizada uma festa de São João. Noite de sábado, o Apollo está lotado, gente saindo pelo ladrão, a pista de dança sem que se possa dar um passo, as mesas tomadas. Um tanto estranha para o lugar, a decoração, no entanto, é fiel ao clima: lanternas e bandeirinhas coloridas suspensas cruzam o salão. Só falta a fogueira.

Mas a casa acende de vez com a chegada de Noel Rosa, que, em sua apresentação, alterna grandes sucessos com músicas menos conhecidas. A plateia vem abaixo quando ele faz um de seus números prediletos, cantar, comme il faut, o samba Gago apaixonado.

Mesmo do palco, o compositor não deixa de notar uma moça vestida de verde que não havia de ter idade para estar ali (na verdade, contava 16 anos e, dias mais tarde, começaria a trabalhar naquele mesmo cabaré). Depois do espetáculo, os dois conversam, e Noel, rápido no gatilho, se oferece para levá-la em casa. Ela, educada e malandra, recusa.

Dama do cabaré registra esse encontro: Foi num cabaré da Lapa/ Que eu conheci você/ Fumando cigarro/ Entornando champanhe no seu soirée/ Dançamos um samba/ Trocamos um tango por uma palestra/ Só saímos de lá/ Meia hora depois de descer a orquestra. Com algumas liberdades poéticas: Ceci não fumava. Nem poderia entornar champanhe no soirée porque não usava soirée naquela noite. E, vem cá, você imagina Noel tendo um bom carro na porta? Mas que dançaram um samba, dançaram; e palestraram, como já foi dito, deixando o tango para lá.

Composto em 1934, o samba só seria gravado dois anos depois, por Orlando Silva, na Victor, fazendo parte da trilha sonora do filme Cidade mulher, produção de Carmem Santos e direção de Humberto Mauro.

A mesma festa de São João e a mesma Ceci ainda inspirariam Noel Rosa a fazer o que muitos consideram sua obra-prima, o dolorido Último Desejo (Nosso amor que eu não esqueço/ E que teve o seu começo/ Numa festa de São João/ Morre hoje sem foguete/ Sem retrato e sem bilhete/ Sem luar, sem violão), de 1937, escrito no período final da sua vida foi passado para a pauta no leito de morte, com o compositor mal podendo ditar a melodia ao amigo Vadico.

A gravação de Aracy de Almeida, em julho de 1937, para a Victor, realizada dois meses depois da morte de Noel, adultera o sentido original de um dos versos, erro que tem sido repetido na maioria das interpretações ao longo dos anos. O autor não escreveu que meu lar é UM botequim, e sim que meu lar é O botequim.

Uma gravação do mesmo samba, por Marília Baptista, rival de Aracy na preferência do compositor, feita muitos anos mais tarde, em 1963, apresenta uma melodia diferente na segunda parte. Marília morreu jurando que Noel lhe ensinara assim.

Se no primeiro samba (No outro dia lá nos Arcos eu andava/ À procura da dama do cabaré) Noel Rosa, que tinha acabado de conhecer a futura amante, respeita e entende seu comportamento boêmio numa atualização, dir-se-ia que os dois estavam apenas a fim de ficar em Último Desejo o compositor faz um ajuste de contas em grande estilo poético, a despedida que merecia um caso sentimental atribulado.

Este texto é parte de um livro em preparo sobre histórias do samba.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário