segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Outra versão do triângulo amoroso


Ceci – Noel Rosa – Mário Lago


Ceci

Ele (Noel) e Mário Lago só se conhecem de vista. Embora tenham a quase a mesma idade (Noel é mais velho um ano menos quinze dias), parecem-se bastante separados no tempo. Pelo menos em termos de boemia, Noel já se pode considerar um veterano, um velho frequentador do mangue, do Estácio, dos botequins do Centro, desses cabarés que se dispõem ao longo da Mem de Sá e da Visconde de Maranguape. E só agora Mário começa a aparecer pela Lapa. Encontraram-se algumas vezes no Nice, outras em reuniões com amigos comuns, outras mais aqui e ali. Trocaram meia dúzia de palavras, nada mais. Hoje, que os dois sabem existir uma mulher entre eles, tornam-se ainda mais estranhos, olhando-se à distância, cismados. Jamais serão amigos. Nem poderiam. A impedi-los, Ceci e o tempo. Ceci não sabe o que quer, tempo cada vez menos generoso para com um Noel doente e cansado.

Mas ainda gosto muito de você, Noel.

O silêncio com resposta é suficiente para que Ceci saiba que ele não acredita. Sempre foi assim, as queixas, as zangas fingidas, nas horas em que Noel não vê em seus erros mais do que travessuras de criança, perfeitamente perdoáveis, e o silêncio, um silêncio frio, cortante, se algo que ela faça o machuque de verdade.

É durante esse período difícil para todos – ele, Ceci, Mário – que Noel rabisca os primeiros versos de um novo samba. Nada mais do que rabiscos sobre os quais ajusta um começo de melodia, sementes que guardará até que tenha forças para fazê-las brotar.

Versos interrogativos para interrogar Ceci:

(...)

O apartamento de Vadico fica na Rua das Marrecas, bem perto da Lapa. Uma garçonnière a que os amigos recorrem sempre que fazem uma conquista pelas redondezas. É ali também que ele e Noel, em torno do piano, escreveram a maior parte de seus sambas juntos. Mas desta vez Noel prefere outro lugar, outro, outro piano. Mais próximo do Nice, como se tivesse pressa. Vadico nota-lhe a ansiedade, o ar angustiado. Floriano sugere que usem o piano de um clube da esquina, a poucos passos do Nice. Os três se dirigem para lá.

No caminho, Noel explica que tem um começo de samba que quer que Vadico o ajude a concluir. E algo que eles têm que fazer logo, o samba está preso dentro dele, como um nó na garganta.

Está bem, Noel – diz Vadico.

Noel começa a desabafar, a falar de Ceci, de suas queixas de amor. Nesse dias – talvez pela doença – são também confusos os seus sentimentos (...).

Enquanto Noel fala com Vadico, Floriano afasta-se, discretamente. Sente-se embaraçado diante das confidências que sabe feitas a Vadico e não a ele. Fica à distância, vendo e ouvindo os amigos trabalharem no que parece ser um primor de samba. Noel vai passar a letra a limpo em seu caderno de folhas soltas. Anotará o gênero e a autoria (samba de Vadico e Noel Rosa), o título (Pra que mentir?) e a data (8 de março de 1937). É apenas um esboço. Conseguirá vê-lo concluído?

Pra Que Mentir?

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê?! Pra que mentir,
Se não há necessidade me  trair?
Pra que mentir
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que já sei
Que tu não gostas de mim?!
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?!


(Do livro “Noel Rosa uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier)


Ceci, a Dama do Cabaré

Flavia Caled e João Pedro Nascimento

Foi no dia 23 de junho de 1934, em uma festa no bairro carioca da Lapa, que Noel Rosa se encontrou pela primeira vez com Juraci Correia de Moraes, mais conhecida como Ceci, a dama do cabaré. Uma jovem de 16 anos que veio da cidade serrana de Nova Friburgo para o Rio de Janeiro, conseguindo seu primeiro emprego como dançarina no Cabaré “Apolo”. Na data em que conheceu Noel, Juraci estava recebendo uma homenagem no cabaré, e Noel se apaixonou pela moça.

O envolvimento de Noel e Ceci durou três anos e a moça passou a ser uma das mulheres mais conhecidas e desejadas da Lapa. O romance era bem conturbado e sempre havia brigas e confusões entre os dois, mas foi marcante na vida do compositor que criou diversos sambas no tempo em que ficou com a jovem, como “Dama do cabaré”, “O maior castigo que eu te dou”, “Quem ri melhor”, “Só pode ser você”, “Pra que mentir”, “Silêncio de um minuto” e “Último Desejo” (que anunciava o fim do romance).

“Dama do Cabaré” foi composto em 1934 e só foi gravado em 1936 por Orlando Silva, e a canção fez parte da trilha sonora do filme Cidade Mulher, que foi produzido por Carmem Santos e dirigido por Humberto Mauro. Noel usava o seu talento musical para dar voz poética aos acontecimentos de sua vida. O samba dava a forma e a cadência necessária para exprimir seus sentimentos.


Noel Rosa

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