quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Pequenos textos literários



Um dia na praia

O menino tinha que descrever: Um dia na praia. Começou: “Era um belo dia de chuva.”
‒ Não pode, disse o professor.
‒ Não pode por quê?
‒ Porque ninguém vai à praia num dia de chuva.
O menino não se deu por achado:
‒ Não teima, professor. Vai sim. A gente, quando saiu de casa, estava um sol bonito pra cachorro. Quando a gente pisou na areia, caiu um temporal desgraçado.
‒ E como você vai acabar essa descrição?
‒ “Aí nós voltamos pra casa.”
O professor ficou indignado:
‒ Ah, só, não é? E o resto da descrição?
‒ Não tem.
‒ Mas não temo como?
E o menino, danado da vida:
‒ Ah, o senhor queria que a gente ficasse na chuva para pegar um resfriado?

(Pedro Bloch)

O Padeiro

(...) Tomo meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo meu café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas para não incomodar os moradores, avisava gritando:
‒ Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?
“Então você não é ninguém!”
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo.

(Rubem Braga)

Bom, mas não muito.

A diligência, entre nuvens de poeira, rolava aos trancos pela estrada. Alguns passageiros, de braços cruzados, meditavam em silêncio. Ouviam-se, de vez em quando, os gritos estridentes do boleeiro... Na minha frente, dois camponeses conversavam. Um deles, que parecia mais velho, falava desta sorte:
‒ Tenho agora um magnífico pomar em minha casa.
‒ Isso é que é bom! ‒ ajuntou o outro, com um sorriso de vulgar e lorpa amabilidade.
‒ Bom, mas não muito. ‒ respondeu o velho. ‒ Pois tenho com o pomar um trabalho excessivo.
‒ Isso é que foi mau!
‒ Mau, mas não muito. Graças ao novo pomar, ganhei algum dinheiro e com esse primeiro lucro comprei um porco.
‒ Isso é que é bom!
‒ Bom, mas não muito. O porco fugiu-me de casa e foi para o quintal do vizinho, que se apoderou dele e matou-o.
‒ Isso é que foi mau!
‒ Mau, mas não muito. Dei queixa ao juiz e o meu vizinho foi obrigado a me pagar uma boa indenização.
‒ Isso é que foi bom!
‒ Bom, mas não muito, pois o tal vizinho, em represália, soltou os cabritos no meu pomar.
‒ Isso é que foi mau!
‒ Mau, mas não muito. Matei os cabritos e vendi as peles na feira.
‒ Isso é que foi bom!
‒ Bom, mas não muito...
Aquela conversa já começava a fazer-me mal aos nervos. Resolvi descer da diligência, mesmo em movimento; fui, porém, tão infeliz que tropecei numa pedra e caí.
‒ Isso é que foi mau! Dirá, naturalmente, o leitor. Mau, mas não muito, pois só assim fiquei livre de ouvir, durante algumas horas, uma história que parecia não Ter mais fim.
‒ Isso é que foi bom!

(Malba Tahan)

A carta de amor

No momento em que Malvina ia por a frigideira no fogo, entrou a cozinheira com um envelope na mão. Isso bastou para que ela se tornasse nervosa. Seu coração pôs-se a bater precipitadamente e seu rosto se afogueou. Abriu-o com gesto decisivo e extraiu um papel verde-mar, sobre o qual se liam, em caracteres enérgicos, masculinos, estas palavras: “Você será amada…”.

Malvina empalideceu, apesar de já conhecer o conteúdo dessa carta verde-mar, que recebia todos os dias, havia já uma semana. Malvina estava apaixonada por um ente invisível, por um papel verde-mar, por três palavras e três pontos de reticências. “Você será amada…”. Há uma semana que vivia como ébria.

Olhava para a rua, e qualquer olhar de homem que se cruzasse com o seu, lhe fazia palpitar tumultuosamente o coração. Se o telefone tilintava, seu pensamento corria célere: talvez fosse “ele”. Se não conhecesse a causa desse transtorno, por certo Malvina já teria ido consultar um médico de doenças nervosas. Mandara examinar por um grafólogo a letra dessa carta. Fora em todas as papelarias à procura desse papel verde-mar e, inconscientemente, fora até ao correio ver se descobria o remetente no ato de atirar o envelope na caixa.

Tudo em vão. Quem escrevia, conseguia manter-se incógnito. Malvina teria feito tudo quanto ele quisesse. Nenhum empecilho para com o desconhecido. Mas para que ela pudesse realizar o seu sonho, era preciso que ele se tornasse homem de carne e osso. Malvina imaginava-o alto, moreno, com grandes olhos negros, forte e espadaúdo!

O seu cérebro trabalhava: seria ele casado? Não, não o era. Seria pobre? Não podia ser. Seria um grande industrial? Quem sabe?

As cartas de amor, verde-mar, haviam surgido na vida de Malvina como o dilúvio, transtornando-lhe o cérebro.

Afinal, no décimo dia, chegou a explicação do enigma. Foi uma coisa tão dramática, tão original, tão crível, que Malvina não teve nem um ataque de histerismo, nem uma crise de cólera. Ficou apenas petrificada.

“Você será amada… se usar, pela manhã, o creme de beleza Lua Cheia. O creme Lua Cheia é vendido em todas as farmácias e drogarias. Ninguém resistirá a você, se usar o creme Lua Cheia.”

Era o que continha o papel verde-mar, escrito em enérgicos caracteres masculinos.

Ao voltar a si, Malvina arrastou-se até ao telefone:

– Alô! É Jorge quem está falando? Já pensei e resolvi casar-me com você. Sim, Jorge, amo-o! Ora, que pergunta! Pode vir.

A voz de Jorge estava rouca de felicidade!

E nunca soube a que devia tanta sorte!

(André Sinoldi)


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