domingo, 7 de agosto de 2016

Se você é paio - você é bobo.


É Paio*

Moniz Barreto



Quem crê na bela, a quem ama.
Quando raivosa ciúma,
No faniquito ou desmaio,
E aflito por ela chama...
Não há dúvida nenhuma,
          É paio.

Velho com mais de cinquenta,
Que a moça de quinze anos,
Viva e quente como um raio,
Esposa e a cabeça isenta
Julga de pesados danos,
          É paio.

Sujeito que faz à mesa
Discursos de légua e meia
Em estilo inchando e cambaio,
E de verbosa riqueza
Se inculca e se pavoneia,
          É paio.

O que, tratando com gente
Da pátria língua, em francês
Fala como papagaio,
E acha isso mais decente
Que falar em português,
          É paio.

Moço eivado do juízo,
Que revê-se em seu semblante,
Com o quiserdes chamai-o;
Para mim não é Narciso,
Tem um nome mais frisante,
          É paio.

O que tem de ir a salões,
E o que há de lá dizer
Parafusa e faz ensaio
De gestos e posições,
Esse (não tem mais que dizer)
          É paio.

Quem hoje ainda porfia
Em colher no Pindo flores,
E leva de maio a maio
Sem co´a bolsa vazia,
É o qu´eu sou, meus senhores,
          É paio.

Mais que as letras vale a treta;
Só esta dá lauta mesa,
Carro, cavalo e lacaio;
Acabando na pobreza,
          É paio.


*Este brasileirismo, hoje em desuso, significava “trouxa”, bobo, toleirão, como os versos de Moniz Barreto, aliás, vão definindo, de estrofe a estrofe.


Francisco Moniz Barreto (1804-1868) reclama agora a atenção. Aos dezoito anos alistou-se como voluntário nos batalhões patrióticos da Independência. Já nesse tempo era o que sempre foi, a mais assombrosa personalização do talento improvisatório que o Brasil tem possuído. Fez a campanha da Cisplatina, residiu no Rio de Janeiro até 1838. O resto da existência, passou-o na Bahia, sua terra natal.

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