terça-feira, 6 de setembro de 2016

A última viagem do bonde gaiola


No ano de 2002, para comemorar os 130 anos da Companhia Carris, foi lançado um concurso de contos que relatassem memórias sobre a Carris. Os textos que tiveram uma boa classificação foram reunidos em um livro intitulado “Centro e trinta anos Carris: relatos da história e outras memórias”. Iremos transcrever a baixo trechos do conto intitulado A última viagem do bonde gaiola, escrito por Clovis Milton Duval Wanmacher:



Desci a Rua Clara até a Rua da Praia e corri em direção à parada de bonde, o frio castigando as pernas por causa das calças curtas. Em seguida ouvi o rangido do bonde Gasômetro. Era um bonde “gaiola”, cantando e dançado sobre os trilhos.

‒ “Tem lugar, vamos dar mais um passinho ao fundo do corredor, repetia o motorneiro”.

Não dei bola e sentei-me num banco lateral da frente, de onde podia bisbilhotar os outros passageiros. Para me distrair comecei a ler os reclames fixados no bonde. Lá estava o xarope Bromil, o amigo do peito. E eu, que já tinha chiado do peito, fiquei a matutar se algum dia ainda consideraria o Bromil tão amigo quanto o Heron, meu colega da quarta série e filho de um cobrador de bonde. Aquele sim era amigo do peito (...).

O bonde parou em frente a Pharmácia Carvalho. Na fachada havia um reclame da Pomada São Lázaro, um santo remédio, mas como o remédio podia ser santo? (...) Vi de relance a mulher da Pharmácia Carvalho, bem bonita, apesar de já ter mais de vinte anos. Continuei lendo os reclames: “Contra dores, queimaduras, torcicolos, torceduras, reumatismo, contusões, um remédio já usei e pronto alívio encontrei, com Pronto Alívio Radway”. Meu Deus, pensei, o que seria Radway? (...). O gaiola parou, esperando a passagem de outro bonde pelos trilhos da frente. Uma guria da minha idade sentou-se à minha frente. Grudei nela e fiquei um baita tempo secando, só para ver se ela me dava bola. O gaiola voltou a andar, gingando nos trilhos com aquele rebolado que mais parecia o da mulher da Pharmácia Carvalho. Meio minuto depois, comecei a achar a guria feia e voltei a olhar os reclames. Lá estava o homem com o bacalhau nas costas. Deus do céu! Que coisa mais horrorosa aquele óleo de fígado de bacalhau, chegava a embrulhar o estômago. Ao lado do bacalhau estava o Vinho Reconstituinte Silva Araújo. Mas que palavra mais feia aquela, reconstituinte. Que será que significava? Credo, pensei cá com os meus botões, mas como tem palavra esquisita. Então me lembrei da vez em que o tio José trouxera garrafão de vinho doce e bebi uma caneca inteirinha. Além de ficar tonto e me esborrachar no chão, levei uma baita tunda do meu pai.

Quando o bonde fez a curva na Casa Guaspari e entrou no abrigo da Praça Quinze, o motorneiro avisou que o bonde gaiola voltaria para o fim da linha, no Gasômetro, e que a gente deveria descer e fazer uma baldeação. Troquei de bonde e continuei a minha viagem, com a cabeça no ar, contando os postes, até descer na parada do colégio. No dia seguinte, os bondes foram recolhidos, e com eles, um pedaço da minha infância.


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