sábado, 24 de setembro de 2016

Amor imortal morre de tarde















De tarde, ao dobrar uma esquina, aquele encontrão. Mercedes Pires nem reparou nele, que foi sua grande paixão. Aniceto de Castro, o Castrão das Rendas Aduaneiras, também em Mercedes não reparou. Esteve na curva de 1922, a pique de meter uma bala no casco pela beleza em flor de Mercedes. E Mercedes, pelo bem-querer de Castro, quase abriu os pulsos com uma faca de cortar mortadela. Do talho aos jornais era pulo de periquito. E até imaginou o berro das manchetes: “Linda moça de Cordovil morre por um amor impossível.” Mas entre o tiro que não houve e a faca que não cortou, a folhinha da parede desfolhou quarenta bem passados anos. E de repente, na dobra de uma esquina, aquele esbarrão.

Castro nem reparou em Mercedes. Falou para dentro, para o ouvido de seu suspensório:

‒ Uma ilha desta tonelagem devia andar no meio da rua, com placa de caminhão nas costas. É páreo para ônibus e não para gente de calça e botina.

Mercedes também não reparou em Castro. Falou sozinha:

‒ Cada tipo esquisito! Parece, de tão gordo, que está esperando criança. Se tivesse espelho em casa, devia reparar que aquela cara de engomador elétrico não pode usar óculos, nem costeleta. É cara para tomada de parede.

E assim um passou pelo outro. Perdidos na distância de quarenta anos.

(José Cândido de Carvalho)


Nasceu em Campos, Rio de Janeiro, em 1914. Jornalista. Firma-se como um dos mais importantes ficcionistas brasileiros, pelo estilo e pela temática com o romance O coronel e o lobisomem. É também autor de pequenos textos marcados pelo humor e pelo registro de cenas da vida dos pequenos vilarejos brasileiros e seus habitantes típicos.

José Cândido faleceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 1° de agosto de 1989.



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