segunda-feira, 26 de setembro de 2016

As pílulas



Arthur Azevedo


Há muitos anos havia no Rio de Janeiro um boticário, em cujo estabelecimento se reuniam todas as noite – das sete as dez – uns indivíduos que não faziam outra coisa senão discutir sobre política.

Uma noite apareceu na roda, levado por um dos mais velhos frequentadores da botica, certo oficial argentino, revolucionário, que fora deportado da sua terra, e andava comendo o negro pão do exílio... no “Frères Provençaux”.

Desde o instante em que esse elemento exótico apareceu na botica, cessou completamente a cordura que havia naquelas confabulações tranquilas e burguesas.

O argentino a propósito de tudo deprimia os homens e as coisas do país que o agasalhava, poupando, nas suas impertinências invectivas, apenas a nossa naturaleza.

A roda era pacata; nenhum dos presentes tomava a peito, com o indispensável ardor, a defesa, aliás facílima, da nossa terra; e quando um deles se atreveu a dirigir-se em voz mais alta ao argentino, este de tal sorte gritou, gesticulou e regougou, e tantas vezes bateu coma bengala no chão e na grade que separava o boticário dos seus fregueses que houve ajuntamento de transeuntes à porta da botica.

O dono da casa, homem de bom natural, que raro se envolvia nas conversas, aviando pachorrentamente lá dentro as receitas enquanto cá fora se discutia com mais ou menor calor, o dono da casa dessa vez saiu do sério e do almofariz, e veio dizer ao revolucionário que não gritasse tanto.

É bem de ver que o homenzinho, habituado a revoltar-se contras os governos de seu país, não suportaria que um simples boticário lhe viesse dizer que não gritasse.

Gritou mais e mais, e tantas coisas disse, que o dono da casa acabou por gritar também.

‒ Ponha-se no olho da rua, sem patife! Bradou-lhe num tom que não admitia réplicas.

E, segurando o argentino pela cintura, obrigou-o, com um empurrão, a dar um pulo até o meio da rua.

***

No dia seguinte, o boticário foi desafiado para um duelo. Entraram-lhe em casa dois sujeitos mandados pelo argentino, que lhe pediram indicasse dois amigos com quem eles se entendessem para regular as condições do encontro.

O boticário, sem levantar os olhos do alambique, disse-lhes que sim, que as suas testemunhas lá iriam ter; mas desde logo preveniu aos dois sujeitos, sendo ele o desafiado, cabia-lhe a escolha das armas.

‒ O nosso comitente aceita qualquer arma, pois todas maneja com igual perícia. Já teve quinze duelos no Rio da Prata; matou sete adversário e feriu oito!

‒ Pois olhem, meus senhores –  respondeu o boticário sempre às voltas com o alambique – a mim não me há de matar nem mesmo ferir.

Nesse mesmo dia reuniram-se as quatro testemunhas e acordaram que o duelo se realizaria na manhã seguinte, no Jardim Botânico. O boticário forneceria as armas.

À hora convencionada achavam-se a postos os adversários, os padrinhos e um médico levado pelo argentino.

‒ Então? As armas?... perguntou este, olhando em volta de si.

‒ As armas cá estão – disse o boticário, aproximando-se e tirando uma caixinha da algibeira do colete. – Escolhi estas.

E, abrindo a caixinha, mostrou duas pílulas.

 ‒ Pílulas! – exclamaram todos.

‒ Pílulas, sim. Este senhor é um militar, um duelista que se gaba de ter matado sete homens, e que maneja perfeitamente a espada, o sabre e a pistola; eu sou um pobre boticário, que não tem feito outra coisa sem sua vida senão remédios. Se algum dia matei alguém, fi-lo sem ter consciência disso... Cabia-me a escolha das armas: escolhi as minhas...

‒ Mas isso não é sério! – exclamou o revolucionário.

‒ É mais sério do que usted supõe; uma destas pílulas tem dentro ácido prússico; a outra é inofensiva. Tiremo-la à sorte, engulamo-la, e o que tiver escolhido a envenenada em poucos segundos deixará pertencer ao número dos vivos.

E, apresentando a caixinha ao adversário:

‒ Sirva-se.

‒ Nunca! Não me presto a um duelo ridículo!

‒ Ridículo? Ora essa! Trata-se de um duelo de morte, e eu não compreendo senão assim. Quando aqui vim, foi disposto a morrer ou a matar. – Vamos, faça favor de escolher uma das pílulas!

O argentino estava lívido.

‒ Se usted não quer escolher, escolho eu; mas se não é um covarde, tem que tomar a outra imediatamente, porque os efeitos do ácido prússico são prontos!

E, tirando um das pílulas, engoliu-a serenamente.

‒ Bom; já engoli uma; vá! A outra! Depressa!...

‒ Ah! Não quer engolir a outra! Pois engulo-a eu, porque são ambas de miolo de pão, e usted é uma maricas!

E engoliu a outra pílula.

***

Nesse mesmo dia o argentino deixou o Rio de Janeiro. Foi comer noutra parte o negro pão do exílio.


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Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão a 07 de julho de 1855, é uma das grandes figuras do humorismo brasileiro. Foi jornalista, comediógrafo, contista e poeta. Em toda sua obra campeia um fino e gracioso humorismo. Autor dos "Contos Possíveis", "Contos Efêmeros", "Contos fora de moda", "Contos em verso", "Contos Cariocas" e "Vida alheia", espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem "O Dote", "A Almanjarra", "A Véspera de Reis", "O Oráculo", "Vida e Morte", "Entre a Missa e o Almoço", "Entre o Vermute e a Sopa", "Retrato a Óleo" e "O amor por Anexins". Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido "A Gazetinha", "Vida Moderna" e "O Álbum". Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, em que ocupou a cadeira n° 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono, faleceu no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.

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