terça-feira, 13 de setembro de 2016

Candinho Bicharedo


Antônio Augusto Fagundes


Se eu falo no Candinho Bicharedo, primeiro, porque era contador de causo; segundo, porque ele peleou em 23, do lado dos Maragatos. Mas era Maragato dos quatro costados! Quando cercaram Uruguaiana, no primeiro dia de abril de 23, ele se juntou com as forças de Honório Lemes. E no combate do Ibicuí da Armada, onde Flores da Cunha atacou com ímpeto enorme, matou tanta gente que os urubus fizeram cerimônia: só comiam de capitão pra cima...

Um piquete de Flores da Cunha aprisionou Candinho Bicharedo! Degola, não degola... disseram pro Flores degolar.

‒ Não, o Candinho Bicharedo! Que é isso! Vão tomar banho! O Candinho é uma glória aqui em Uruguaiana, aqui nesta região da Fronteira... Como é que vamos degolar?

‒ Mas, ele é um contador de causo! Muito mentiroso!

‒ Não, não, o Candinho é sagrado, disse o Flores. Deem ele prum soldado cuidar.

O soldado ficou cuidando do Candinho. Todos os dias o Candinho ia ao ouvido do soldado:

‒ É, vocês passaram no Ibicuí da Armada (onde Honório Lemes ofereceu uma resistência muito grande), mas passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!

Com o passar do tempo, o soldado foi enchendo a paciência e não aguentou mais. Passou o Candinho pro cabo! O cabo ouvia, todos os dias:

‒ É. Vocês passaram no Ibicuí da Armada, mas, passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!

O cabo não aguentou e passou o Candinho pro sargento. O sargento passou pro capitão. O Capitão passou prum major; dizem até que era o major Laurindo Ramos, lá do Itaqui, que não era de laçar com sovéu curto... E ninguém mais agüentava o Candinho. Até que passaram pro próprio Flores da Cunha.

‒ Olha, Coronel Flor, não aguentamos mais o Candinho! Só o senhor, pra dar um jeito na vida dele!

‒ Mas, o que é que ele faz?

‒ Ele fica incomodando a gente, à roda do dia. Já estava com vontade de mandá degolá!

‒ Não, não e não! Me passem o Candinho. (O Dr. Flores da Cunha tinha sido intendente em Uruguaiana; comandava a Brigada do Oeste, na Fronteira da República, com o Coronel Neco Costa, aquela gente toda!). Bueno, e pro flores o Candinho cevou o mate, mas um mate véio espumando como apojo de brasina! Alcançou o mate pro Dr. Flores, que era Coronel Provisório, mas todo mundo chamava de General. Diz o Candinho:

‒ Óia, General Flor, vocês passaram no Ibicuí da Armada, mas só passaram porque tinham mais gente, mais arma que nós. Nós semos muito mais homens que vocês!

E o Flores, que já sabia da história e que também não era de pelar com a unha, respondeu:

‒ Olhe, Candinho, tu é Maragato, não é?

‒ Sim, claro. Sou Maragato.

 Agora, tu vai vestir a farda azul dos meus Provisórios e botar um lenço branco no pescoço, jurar a Bandeira do lado do Governo, senão vou te mandar degolar. Tu sabe que essa indiada tá louca pra te degolar; eu é que não deixei!

Na voz da degola, o Candinho Bicharedo achou que já tava com idade de sentar praça! E sentou. Arrumaram uma farda azul pra ele. Aquele bonezinho, uma borda vermelha aqui em cima, e ataram um lenço branco bem nas pontas; mandaram o Candinho se apresentar pro Flores e bater continência. O Candinho, travestido de Chimango, se apresentou ao Flores. Enquadrou o corpo, bateu continência. O Flores chasqueou:

‒ E agora, Candinho? O que tu acha do combate do Ibicuí da Armada?

O Candinho não se apertou:

‒ É, General. “Nós” passemos, mas só “passemos” porque “nós” tinha mais gente, mais arma. “Eles” são muito mais homens do que “nós”!



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