sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ceguinho é a mãe


(Texto de Geraldo Magela, humorista cego)


Para começo de conversa, o cego é sempre um ponto de referência, assim como os gordos e os carecas: “Você está vendo aquela loira? Atrás daquele gordo...” ou: “Você está vendo aquele careca ali na esquina? Pois é, a loja que você está procurando fica ao lado dele.” Mas o pior tipo de referência é a do ceguinho! Tem sempre alguém dizendo: “Quero ficar cego agora, se estiver mentindo!” Fica parecendo que todo cego é mentiroso.

Muitas pessoas acham que, por eu ser cego, todo mundo na minha casa também tem de ser: a mulher, os filhos, o cachorro, o papagaio... Às vezes até me perguntam: “Sua mulher é normal?” E eu digo: “Não, ela tem antena, rodinha e entrada para CD!”

Os comentários gerais, então, merecem capítulo especial. Alguns dizem: “Coitadinho, tão bonitinho e cego!” “Você quer dizer que, além de cego, eu tinha de ser feio, ter o pé grande, morar longe...?” E tem os que perguntam: “Você é totalmente cego?” Ao que respondo: “Não, só até as 18 horas. Depois dirijo um táxi!”

Atravessar a rua é uma verdadeira piada. Tem pessoas que me ajudam a atravessar uma avenida de duas pistas e, quando chegamos ao canteiro central, perguntam: “Você quer atravessar a outra pista também?” Eu digo: “Não, eu moro aqui. Vamos entrar, tomar um cafezinho.” Outro dia mesmo, eu estava com muita pressa e queria atravessar a rua, mas ninguém me dava o braço. Então pensei: “O que há de errado comigo?“ Olhei para um lado, olhei para o outro... Não vi ninguém porque sou cego... E decidi: “O primeiro que me roçar o braço, eu agarro e atravesso!” Dito e feito: o primeiro que me esbarrou, agarrei nele e atravessamos em meio às buzinadas. Ao chegar do outro lado, agradeci:

- Muito obrigado.

- Não, eu que agradeço. Sou cego...

- Uai, você também é cego?

A maneira mais correta de atravessar um cego na rua é você deixar que ele segure seu braço, pois assim ele sente os seus movimentos. Você pode correr, descer escada, subir escada, pular buraco que não tem problema! A maioria das pessoas pega o cego pelo braço, suspende e aperta, mas aperta com tanta força que dá a impressão de que o cego quer fugir. E ele só quer atravessar a rua! Às vezes coincide de duas pessoas me pegarem uma de cada lado e suspenderem meu braço ao mesmo tempo. Eu penso: “Que bom, vão me carregar!” Outros já me puxam pela bengala. Vão puxando, puxando... Aí eu solto a bengala na mão deles. E, quando chegam do outro lado da avenida, eles se assustam e perguntam: “Opa, cadê o cego que estava aqui?”


(Do site: www.ceguinho.com.br)

A verdadeira história dos cegos e o elefante


O que houve depois

A história dos cegos e do elefante está disseminada por aí, em várias versões. Mas nenhuma conta o que aconteceu depois. Corrigimos isso a tempo, confira.

Era uma vez seis cegos à beira de uma estrada. Um dia, lá do fundo de sua escuridão, eles ouviram um alvoroço e perguntaram o que era.

Era um elefante passando e a multidão tumultuada atrás dele Os cegos não sabiam o que era um elefante e quiseram conhecê-lo.

Então o guia parou o animal e os cegos começaram a examiná-lo:

Apalparam, apalparam... Terminado o exame, os cegos começaram a conversar:

‒ Puxa! Que animal esquisito! Parece uma coluna coberta de pelos!
‒ Você está doido? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, isto sim!
‒ Qual abano, colega! Você parece cego! Elefante é uma espada que quase me feriu!
‒ Nada de espada e nem de abano, nem de coluna. Elefante é uma corda, eu até puxei.
‒ De jeito nenhum! Elefante é uma enorme serpente que se enrola.
‒ Mas quanta invencionice! Então eu não vi bem? Elefante é uma grande montanha que se mexe.

E lá ficaram os seis cegos, à beira da estrada, discutindo partes do elefante. O tom da discussão foi crescendo, até que começaram a brigar, com tanta eficiência quanto quem não enxerga pode brigar, cada um querendo convencer os outros que sua percepção era a correta. Bem, um não participou da briga, porque estava imaginando se podia registrar os direitos da descoberta e calculando quanto podia ganhar com aquilo.

A certa altura, um dos cegos levou uma pancada na cabeça, a lente dos seus óculos escuros se quebrou ferindo seu olho esquerdo e, por algum desses mistérios da vida, ele recuperou a visão daquele olho. E vendo, olhou, e olhando, viu o elefante, compreendendo imediatamente tudo.

Dirigiu-se então aos outros para explicar que estavam errados, ele estava vendo e sabia como era o elefante. Buscou as melhores palavras que pudessem descrever o que vira, mas eles não acreditaram, e acabaram unidos para debochar e rir dele.

Morais da história:

Em terra de cego, quem tem um olho anda vendo coisas.

Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.

Problemas comuns unem.

Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um,
melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Virgílio Vasconcelos Vilela



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