terça-feira, 27 de setembro de 2016

Dia de Festa

(Excerto)


José J. Veiga


Era um paletó de listras vivas, estendido com outras roupas numa corda. Aritakê passou, viu o paletó, achou bonito. Olhou a camisa do corpo, rasgada, sem cor: decidiu-se. Ninguém viu Aritakê apanhar o paletó, mas muitos o viram andar pelas ruas com ele, parando de vez em quando para levantar uma aba até a altura dos olhos (não podia baixar a cabeça por causa da vasilha de água).

O dono do paletó, homem correto e respeitador das leis, fez o que achou que devia fazer: levou o caso ao delegado; mas fez questão de explicar que não era pelo valor da peça, era pelo princípio; o paletó ele nem queria mais, não ia vestir roupa que andou em corpo de índio.

Achando que o assunto era de importância secundária o delegado entregou-o ao cabo do destacamento e partiu num caminhão cheio de cachorros para uma caçada que ia durar dias. O cabo gostou, havia muito tempo que não funcionava como autoridade.

Aritakê enchia um pote no chafariz quando o cabo chegou com dois soldados armados de sabre, chegou e deu ordem para agarrar e algemar. Aritakê deve ter pensado que eles o estavam presenteando com alguma coisa, ficou olhando as duas pulseiras niqueladas e sorrindo. Mas quando os soldados o puseram para diante a empurrões, aí ele não entendeu e apontou o pote com as duas mãos. O cabo, homem experiente, não ia se atrapalhar; resolveu o problema quebrando o pote com uma botinada, a água se espalhando entre os cacos pela laje do chafariz.

De empurrão em empurrão, o cabo atrás com os polegares no cinto explicando aos curiosos o motivo da prisão, Aritakê foi jogado no calabouço, lugar reservado a presos perigosos. A porta foi fechada com a chave enorme, Aritakê ficou no escuro.

Afora os empurrões, que ele não entendeu, parece que Aritakê não se importou com a prisão. Sentado no parapeito da janela, atrás dos barrotes de quase um palmo de largura reforçados com chapas de ferro, ele passava o tempo entretido em olhar as listras do paletó, prova do pouco caso que fazia da justiça.

Lá um dia o queixoso procurou o delegado para saber em que pé andava o processo, o delegado disse que não andava em pé nenhum, processo de índio é complicado, segue legislação especial, ele não ia mexer em casa de marimbondo por um assunto tão trivial: bastava o criminoso gramar uns tempos na cadeia para deixar o vício; depois, as famílias todas estavam pedindo a liberdade de Aritakê, precisavam muito dele para baldeação de água.

Os dias passavam iguais e sem sentido mesmo para um índio, a comida chegando com atraso porque os meninos escalados para levá-la não tinham pressa, o soldado que a recebia também não ia interromper a história que estivesse contando ou ouvindo, e Aritakê curtindo fome calado. De tempos em tempos um soldado chegava com uma lata d'água e despejava no pote por cima do lodo antigo. Aos domingos os soldados levavam os presos para despejarem o barril dos detritos e tomarem banho se quisessem. O povo ficava olhando de longe, quem estivesse na janela se retirava por causa do mau cheiro, ninguém aproveitava a ocasião para dar aos presos um pedaço de fumo, uma peça de roupa, dinheiro; achavam que preso tem de tudo na cadeia.

Uma tarde de festa - procissão, foguetes, banda de música - os soldados se descuidaram na vigilância, Aritakê notou a porta do calabouço mal fechada, subiu os degraus de pedra como quem não quer nada, empurrou a porta e foi saindo. Os soldados estavam discutindo sobre armas de fogo em uma sala, do corredor se ouvia a conversa.

Aritakê não levou nada, não tinha o que levar, nem sabia para onde ia. Desceu o largo, parou um pouco na porta da igreja, não se interessou pela barulheira, continuou andando, passou a ponte e foi acompanhando o rio. Já na estrada, passada a máquina de arroz e a cerca do matadouro, ouviu tropel e gritos atrás.

‒ Pega o preso! Vai fugindo!

Aritakê olhou para trás, viu os soldados, entendeu que era com ele. O jeito agora era correr.

‒ Pega! É preso fugido! Pega!

Sentado na porta de sua casinhola com uma criança nos braços um homem ouviu o apelo. Depressa ele entregou a criança a alguém lá dentro e tentou cercar o fugitivo. Aritakê quebrou cangalha fácil e passou.

‒ Pega! Não deixa fugir!

Tranquilamente o homem levou a mão à cintura, puxou uma arma, atirou. No baque do tiro Aritakê perdeu o passo, focinhou de lado e caiu de ombro na beira da estrada, uma perna adiante da outra ainda na posição de correr.

Os soldados já vinham chegando, elogiaram a pontaria.

‒ Vai atirar bem assim na praia ‒ disse um.

O homem e os soldados foram ver o efeito da bala, o homem ainda com a arma na mão - a queda podia ser truque de índio treteiro.

Um soldado virou o cadáver com o pé. A bala tinha entrado nas costas e saído no peito.

‒ Conheceu, tapuio safado! ‒ disse o soldado.

O outro estava interessado era na arma.

‒ É ximite, não é? Dá licença? ‒ examinou e completou, entendido: ‒ Logo vi. Bicho que não faz vergonha. Quer negociar?

*****

Fonte: “Literatura comentada” José J. Veiga,
Editora Abril, São Paulo: 1982 págs. 47/51.


José Veiga, conhecido como José J. Veiga, (Corumbá de Goiás, 1915Rio de Janeiro, 1999) foi um escritor brasileiro, considerado um dos maiores autores em língua inglesa do realismo fantástico. A crítica política e social em seus livros é eivada de lirismo, mas não por isso menos incisiva.

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