sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Luar do Sertão



Luar do Sertão é uma toada brasileira de grande popularidade. Seus versos simples e ingênuos elogiam a vida no sertão, especialmente o luar. Catulo da Paixão Cearense defendeu em toda a sua vida que era seu autor único, mas hoje em dia se dá crédito da melodia a João Pernambuco (1883-1947). É uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos.

O tema pode ter origem no coco É do Maitá ou Meu Engenho é do Humaitá, de autor anônimo. Este coco integrava o repertório de João Pernambuco e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Ao menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicados por Henrique Foréis Domingues no livro No tempo de Noel Rosa.

Homem simples, sequer alfabetizado, João Pernambuco, a certa altura de sua vida, queixava-se de ter sido vítima de plágio, por parte de Catulo, quanto à autoria desta modinha.”Segundo Mozart Bicalho, Catulo “disse uma vez que o Luar do sertão era uma melodia nortista, mais ou menos pertencente ao domínio folclórico”. O próprio Catulo, em entrevista a Joel Silveira, declarou: “Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga (...) cujo estribilho era assim: 'É do Maitá! É do Maitá'”. O historiador Ary Vasconcelos, em Panorama da música popular brasileira na belle époque, diz que teve a oportunidade de ouvir Luperce Miranda tocar ao bandolim duas versões do É do Maitá: a original e “outra modificada por João Pernambuco, esta realmente muito parecida com Luar do sertão”.

Leandro Carvalho, estudioso da obra de João Pernambuco e organizador do CD João Pernambuco - O Poeta do Violão (1997), declarou: "Por onde João andava, Catulo estava atrás, anotando tudo; foi o que aconteceu com Luar do Sertão: Catulo ouviu, mudou a letra e disse que era sua”.

Luar do sertão

De Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco


Catulo

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão
.

Ai que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão.
Esse luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.

A lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata
Prateando a solidão.
A gente pega na viola que ponteia
E a canção e a lua cheia
A nos nascer do coração.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste
No sertão se faz luar
Parece até que alma da lua
É que diz, canta
Escondida na garganta
Desse galo a soluçar.

Ah, quem me dera
Eu morresse lá na serra,
Abraçado a minha terra
E dormindo de uma vez.
Ser enterrado numa grota pequenina.
Onde a tarde a sururina
Chora a sua viuvez.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.

Curiosidades

 12 de setembro de 1936. Sábado. Festa no último andar do edifício A Noite; 21 horas: ouvem-se os acordes de “Luar do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, em solo de vibrafone de Luciano Perrone, que será, a partir daí, o prefixo da emissora. Em seguida, a voz limpa e marcante de Celso Guimarães anuncia: “Alô! Alô! Alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”

 Marlene Dietrich, em visita ao Brasil, em 1959, (shows no Copacabana Palace) gostou da música e resolveu gravá-la. Cauby Peixoto (foto abaixo com Marlene) foi quem ensinou, foneticamente, a diva a cantar em português.


 A música foi tocada, por Pixinguinha, Donga e alguns amigos, no enterro de João Pernambuco (Rio de Janeiro. 16 de outubro de 1947) que não teve maiores homenagens.



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