sábado, 17 de setembro de 2016

Maragatos X Chimangos


Origem dos Termos Chimangos e Maragatos


Maragatos em 1923, sob o comando de Honório Lemes,
o “Leão do Caverá”.

 Maragato

O termo tinha uma conotação pejorativa atribuída pelos legalistas aos revoltosos liderados por Gaspar Silveira Martins, que deixaram o exílio, no Uruguai, e entraram no RS à frente de um exército.

Como o exílio havia ocorrido em região do Uruguai colonizada por pessoas originárias da Maragateria (na Espanha), os republicanos apelidaram-nos de "maragatos", buscando caracterizar uma identidade "estrangeira" aos federalistas.

Com o tempo, o termo perdeu a conotação pejorativa e assumiu significado positivo, aceito e defendido pelos federalistas e seus sucessores políticos.

O lenço Vermelho identificava o Maragato.


Chimango

A grafia pode ser ximango. Ave de rapina, falconídea, semelhante ao carcará.

Epíteto depreciativo dado aos liberais moderados pelos conservadores, no início da Monarquia brasileira. No Rio Grande do Sul, nos anos de 1920, foi a alcunha dada pelos federalistas aos governistas do PRR.

O lenço de cor Branca identificava os Chimangos.


História do Rio Grande do Sul
Telmo Remião Moure
Editora FTD S.A

Maragato

Denominação dada ao revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1893, adepto do credo político pregado por Gaspar da Silveira Martins e adversário do partido então dominante, chefiado por Júlio Prates de Castilhos. Revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1923, adepto do partido liderado por Joaquim Francisco de Assis Brasil e contrário a Antônio Augusto Borges de Medeiros, governador do Estado. Federalista.

“Na província de León, Espanha, existe uma comarca denominada Maragateria, cujos habitantes têm o nome de maragatos, e, que, segundo alguns, são um povo de costumes condenáveis; pois, vivendo a vagabundear de um ponto a outro, com cargueiros, vendendo e comprando roubos e por sua vez roubando principalmente animais; é uma espécie de ciganos.

Aos naturais da cidade de São José, no Estado Oriental do Uruguai, dão neste país o nome de maragatos, talvez porque os seus primeiros habitantes fossem descendentes de maragatos espanhóis. Pelo fato de os rebeldes em suas excursões irem levantando e conduzindo todos os animais que encontravam, tendo apenas bagagens ligeiras, cargueiros, etc. Como os da Maragateria e porque (com exceções) suspendiam com o que encontravam em suas correrias, aplicou-se-lhes aquela denominação, que, aliás, eles retribuíram com outras não menos delicadas aos republicanos, a despeito da correção em geral observada por estes em toda a luta.” (Romaguera).

“Ainda hoje (l897), que 11 séculos são decorridos, os maragatos constituem um nódulo distinto no meio da população lionesa. São ainda os bérberes antigos: usam a cabeça raspada, com uma mecha de cabelo na parte posterior; falam uma linguagem que não é bem castelhana, a qual apresenta uma pronúncia arrastada, dura e lenta, e são geralmente arredios.” (Oliveira Martins, apud Vocábulo Sul-Rio-Grandense, P.A., Globo, 1964, p. 289).

Trouxera consigo, além do irmão Aparício, um grupo de maragatos do Departamento de São José, nome por que eram conhecidos os imigrantes de certa região da Espanha, e, que, pelo prestígio do chefe, se estendeu a todos os rebeldes da Revolução Federalista e até, posteriormente, a qualquer adversário da situação castilhista do Rio Grande.” (Arthur Ferreira Filho, Revoluções e Caudilhos, 2a ed., Passo Fundo, p. 34).

“J. F. de Assis Brasil, o velho líder político maragato, lança "A Atitude do Partido Democrático Nacional na Crise do Sucesso Presidencial do Brasil", um trabalho que merece ser lido e meditado" (Pedro Leite Villas-Bôas, Um Quarto de Século de Literatura Rio-Grandense ‒ 1929-1954", in Revista da Academia Rio-Grandense de Letras, n° 9 I, P.A., 1980, p. 125).

“Velho tropeiro Vicente,
que amas tuas origens...
fibra de velhas raízes,
em solo duro e ingrato.
Teimoso remanescente
duma raça em extinção...
És caudilho maragato
sem armas nem munição,
peleando valentemente
na defesa deste chão!”

(Cardo Bravo, Rebeldia, poema)

Chimango

Alcunha dada no Rio Grande do Sul aos partidários do governo na revolução de 1923. Ave de rapina muito comum na campanha rio-grandense, parecida com o carcará, porém menor do que este.

Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul
Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes

Do Blog Página do Gaúcho


Federalistas

→ Maragatos
→ Lenço Vermelho;
→ Líder Gaspar Silveira Martins;
→ Defendiam a instalação de um regime Parlamentarista;
→ Paz assinada em 1895.*
Republicanos

→ Chimangos ou Picapaus
→ Lenço Branco;
→ Líder Júlio de Castilhos;
→ Defendiam um Presidencialismo forte, centralizador;
→ Estavam com Floriano Peixoto.

*Voltariam a lutar em 1923. (Assis Brasil – Maragato X Borges de Medeiros ‒ Chimango)



Gaspar Silveira Martins


Júlio de Castilhos


Maragatos x Chimangos

Uma disputa mortal

Eduardo Bueno

Maragatos e Chimangos foram a campo enfrentar-se pela primeira vez em 11 de fevereiro de 1893, no combate do Salsinho, nos arredores de Bagé. Mas o ódio era mútuo e ancestral, fruto do confronto entre duas tendências políticas que há tempos rachava o Rio Grande. Já houve historiador que tenha se arriscado a dizer que o Estado dividia-se entre “uma Baviera liberal e uma Prússia autoritária”. Embora nem sempre seja fácil saber quem era o que naquele conflito de caudilhos, a luta entre maragatos e chimangos foi travada entre os partidários de Gaspar Silveira Martins e os seguidores de Júlio de Castilhos – e nada mais era do que um reflexo do choque entre o antigo regime monarquista e a nova ordem republicana.

Chamavam-se “maragatos” os federalistas de Silveira Martins, partidários de um regime parlamentarista à inglesa. O apelido fora dado pelos republicanos castilhistas para insinuar que os rebeldes eram mercenários estrangeiros, pois o termo “maragato” designava imigrantes espanhóis radicados no Uruguai, oriundos da província da Maragateria. Como os maragatos julgavam-se descendentes dos berberes – porque, “como eles amavam com deleite o cavalo, a tenda e a lança” ‒ o pejorativo foi adotado como distintivo de honra.

Não se pode dizer que os republicanos de Castilhos – favoráveis ao regime presidencialista de cunho positivista – tenham se identificado com a alcunha que lhes imputaram os maragatos: “chimango” é uma ave comedora de carniça. A bem da verdade, durante os terríveis confrontos da Revolução Federalista de 1893 – a maior guerra civil da história do Brasil - os chimangos eram mais conhecidos como “pica-paus”. Embora ninguém saiba ao certo a origem do apelido, ele com certeza também foi tomado como ofensa pelos castilhistas.

Evidentemente não foi a guerra de nomes, nem a de cores – os maragatos usavam lenço colorado; os chimangos ou pica-paus, divisas brancas – que alimentou o ódio mortal entre as duas facções. Mas o fato é que muito se matou e muito se morreu ao longo de dois anos pelos quais o conflito ensangüentou o pampa. Boa parte das dez mil vítimas foi morta por degola: um golpe de faca na carótida; forma rápida, silenciosa e barata de matar. Se o s chimangos degolaram antes e mais do que os maragatos – dando-lhes, além do lenço, “uma gravata colorada”, os maragatos logo decidiram que não valia a pena ”gastar pólvora com chimango”. (...)


Fonte: Correio do Povo – 18/09/2003

Título original: O Gre-Nal do século. Século XIX


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