sábado, 24 de setembro de 2016

Negro



Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens
As florestas guardaram na sobra o segredo da tua história

A tua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo

Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno

O mar era um irmão da tua raça

Uma madrugada
baixaram as velas do convés
Havia uma nesga de terra e um porto
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro

Principiou aí a tua história

O resto
a que ficou pra trás
o Congo as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo*

(Raul Bopp)


*A palavra urucungo é de origem africana e é sinônimo de berimbau.


Raul Bopp nasceu em Tupanciretã, cidade do Rio Grande do Sul, em 1898, e morreu em 1984, em Porto Alegre. Formou-se em Direito, Bopp, depois de longas viagens pelo Brasil e pelo exterior, seguiu carreira diplomática. Sua obra poética é formada por dois livros: Cobra Norato e Urucungo.

A poesia de Raul Bopp tem como ponto de partida a pesquisa do folclore brasileiro, principalmente o amazônico, e a investigação da nossa história.
            

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