terça-feira, 27 de setembro de 2016

Todo barnabé tem seu dia de ministro


José Cândido de Carvalho



Tocantins Pereira viu passar vinte anos pela sua mesa de amanuense da Secretaria do Fomento. Vinte anos de processos sobre zebu e capim-jaraguá. Lá fora, longe da caneta de Tocantins Pereira, passaram resmas de moças, jardins de flores e cachos de luar.* Aos domingos, na Pensão Saraiva, no Engenho de Dentro, Tocantins varava os processos do Fomento com fúria de saca-rolhas. Alma de portaria, sempre movido a regulamento, não teve olhos para uma certa Mercodenes Silveira que esperava por ele toda tarde na sala de visitas da Pensão Saraiva. Não adiantou Mercodenes estreitar a cintura e mostrar as boas e variadas fatias de que era servida. À vezes insinuava:

‒ Seu Tocantins, está levando uma Theda Bara no cinema Guarani que é uma beleza, seu Tocantins.

Cansada de trabalhar em seco, a moça da Pensão Saraiva transferiu sua paixão para outro bairro. E sobre essa transferência os anos rolaram. Até que uma tarde, no Mercado das Flores, Tocantins ouviu aquela voz feita de asas de borboleta:

‒ Tocantins, Tocantins!

Era dona Mercodenes que parecia ter saído de uma vitrina de modas. Tinha casado com um senador, homem de recursos e de poder. Que ele, Tocantins, pedisse o que bem quisesse. Morava sozinha em Santa Tereza, uma vez que o senador andava longe, tirando o Brasil da beira do abismo a poder de discurso. Que ele aparecesse, dispensava a criadagem. E maliciosa, de dedo enluvado quase no beiço do informador de papéis da Secretaria de Fomentos:

‒ Peça o quiser, Tocantins. Não tenha acanhamento. Ninguém vai saber de nada.

Então, dando pontapés em vinte anos de boi zebu e capim-jaraguá, Tocantins desembuchou:

‒ Se não é pedir muito, dona Mercodenes, eu queria ser transferido para as Rendas Aduaneiras. O senador seu marido pode fazer isso. É do regulamento. O senador pode fazer, que eu sei que pode, dona Mercodenes.

Mas já dona Mercodenes estava longe. Longe para nunca mais.

*****

*O trecho opõe fortermente a rotina do amanuense ao dinamismo da vida.


Texto do livro “Um Ninho de Mafagafes Cheio de Mafagafinhos”, publicado em 1972 pela editora José Olympio. Trata do segundo volume dos “contados, astuciados e acontecidos do povinho do Brasil”.


José Cândido de Carvalho: 1914 – 1989



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