quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A antiga namorada




O cantor Jorge Goulart, que morreu no dia 17.03.2012, aos 86 anos, foi, em todos os sentidos, uma grande voz da música brasileira: cheia, robusta, sonora. Um tenor para grandes distâncias, como mostrava ao cantar “A Voz do Morro” (Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor..., de Zé Kéti), mas que podia reduzir-se a uma suave brisa, quando uma canção como “Laura” o exigia (Laura, um sorriso de criança/ Laura, nos cabelos uma flor..., de Braguinha e Alcyr Pires Vermelho).

Jorge era forte também no Carnaval. Lançou desde “Balzaquiana” (Papai Balzac já dizia/ Paris inteira repetia/ Balzac tirou na pinta/ Mulher, só depois dos 30, de Wilson Batista e Nássara), em 1949, até “Cabeleira do Zezé” e “Joga a Chave, Meu Amor”, ambas de João Roberto Kelly com parceiros, em 1965. No chamado tríduo, ia para a avenida puxar o samba do Império Serrano. Já sua mulher, Nora Ney, era a cantora da noite por excelência, quase uma "diseuse", dona de “Ninguém me Ama” e de fino repertório.

Filiado ao Partidão (PCdoB), Jorge foi demitido da rádio Nacional em 1964. Mas o pior foi nos anos 90: um câncer destruiu suas cordas vocais, obrigando-o a falar por um aparelho ligado à laringe. Um golpe duríssimo para alguém com a sua exuberância vocal. Mesmo assim, não perdeu o humor.

Só falei com ele uma vez. Mas bastou para que me contasse, às gargalhadas, sobre a moça que acabara de ver na rua, em Copacabana, e que lhe lembrou uma antiga namorada.

Cheio de dedos, ele a abordou:

‒ Minha filha, desculpe a liberdade, mas você me recorda alguém que...

A garota o interrompeu:

‒ Eu sei. O senhor é o Jorge Goulart. Suas fotos estão por toda parte lá em casa.

Jorge se empolgou:

‒ Exatamente! Imagino que a pessoa que eu namorei seja... a sua avó, não?

E a garota, sem vacilar:

‒ Não. Bisavó!

Ruy Castro


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