quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A música que Noel Rosa fez inspirado em Madame Satã.



João Francisco dos Santos nasceu em 25 de fevereiro de 1900 na cidade de Glória de Goitá em Pernambuco. Foi dado por sua mãe a um senhor ainda menino e pouco depois fugiu com uma mulher que lhe ofereceu um emprego no Rio de Janeiro. Passou a maior parte de sua vida nas ruas boêmias da Lapa.

Negro elegante, pobre limpo, célebre marginal, valentão, artista, homossexual com orgulho, analfabeto inteligente, capoeirista e carnavalesco. Assim foi definido uma das personalidades mais marcantes e famosas que a Ilha Grande já teve.

João ficou conhecido como Madame Satã, porque ganhou um concurso de fantasias em 1938 fantasiado de morcego com muitas lantejoulas que lembrava uma personagem do filme Madame Satã (filme exibido na época). Algumas semanas após o baile de carnaval do Teatro da República, João e seus amigos gays foram até o Passeio Público (Centro do Rio) onde sempre se reuniam para as “prosas”, quando foram abordados por policiais e levados à delegacia.

Chegando lá, o policial perguntou a João qual era o seu apelido e com medo de alguma represália, João (conhecido como malandro) não disse qual era o seu verdadeiro apelido. Por coincidência, o policial estava no baile de carnaval na ocasião que o Malandro ganhou o concurso e o reconheceu: “Não era você que se fantasiou de Madame Satã e ganhou o concurso do baile de carnaval este ano?”

E desde então o Malandro da Lapa passou a ser conhecido como Madame Satã. Após despontar como um dos primeiros travestis dos palcos brasileiros ganhou fama como valente em escaramuças na Lapa, principal reduto da boemia e da malandragem carioca nos anos 30, quase sempre resistindo à prisão por autoridades policiais.

Nos anos 40, saía de Madame Satã, uma referência à personagem que ele encarnava travestido como cantor e ator, e que lhe valeu o título de Rainha do Carnaval por três vezes.

Madame Satã faleceu em 1976.


Noel Rosa fez uma menção à homossexualidade de Madame Satã*, histórico malandro brigão da Lapa que se travestia, em sua música Mulato Bamba. Milagrosamente, foi num tom bacana, sem preconceitos:

Mulato Bamba

Esse mulato forte
É do Salgueiro.
Passear no tintureiro*
Era o seu esporte.
Já nasceu com sorte
E desde pirralho
Vive à custa do baralho,
Nunca viu trabalho.

E quando tira um samba
É novidade,
Quer no morro ou na cidade,
Ele sempre foi o bamba.
As morenas do lugar
Vivem a se lamentar
Por saber que ele não quer
Se apaixonar por mulher.

O mulato
É de fato,
E sabe fazer frente
A qualquer valente,
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita.

Sei que ele anda agora
Aborrecido
Porque vive perseguido
Sempre e a toda hora.
Ele vai-se embora
Para se livrar
Do feitiço e do azar
Das morenas de lá.

Eu sei que o morro inteiro
Vai sentir
Quando o mulato partir
Dando adeus para o Salgueiro.
As morenas vão chorar
E pedir pra ele voltar.
Ele então diz com desdém:
“Quem tudo quer... nada tem.”


* Satã, que só anos mais tarde passaria a usar o Madame antes do nome, já famoso como travesti e desfilante de concursos de fantasias, refere-se à amizade com Noel em seu livro Memórias de Madame Satã (pagina 17).

* Tintureiro, carro de polícia para transporte de presos. O camburão da época.

A Lapa


Ainda Madame Satã

Madame Satã real tornou-se conhecido no Brasil inteiro após uma entrevista para o semanário “Pasquim”, em 1971, que o saudou como “a verdadeira contracultura brasileira, mais autêntico e muito mais sofisticado do que Jean Genet”, entre outros exageros e elogios, a entrevista em si é um capítulo à parte na história da malandragem, pois permite ver em ação a singularidade de um modo de pensar e agir. Veja como Satã responde às perguntas em alguns trechos:

Pasquim: - Mas você não deu um tiro no guarda?
Satã: - Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente. (...)

Pasquim: - Teve uma vez que você deu uma navalhada na traseira de um sargento. Como é que foi essa história?
Satã: - Eu não dei navalhada na traseira do sargento não (...) parece que ele passou por uma cerca de arame farpado, sei lá, e se rasgou todo.

Pasquim: - Você ainda briga hoje, ainda tem energia?
Satã: - Brigar eu não brigo porque nunca briguei (...)

Pasquim: - Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?
Satã: - Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil.

Ao todo, João Francisco contabilizou 27 anos e oito meses de cadeia, 29 processos, 3 homicídios e cerca de 3 mil brigas. Ágil lutador de capoeira e mestre no manuseio da navalha – contam que ele sempre trazia uma presa na sola do sapato –, Madame Satã só recorria ao revólver em situações extremas, a exemplo da vez em que desfechou um tiro num soldado, na esquina da Rua do Lavradio com a Avenida Mem de Sá. Na famosa entrevista concedida ao histórico tablóide O Pasquim, em 1971, com seu deboche habitual o malandro afirmou ter sido preso injustamente, alegando que a arma disparara de forma casual. “A bala fez o buraco, quem matou foi Deus”, afirmou. Dizia que não brigava, se defendia.

A briga com o sambista Geraldo Pereira


 O Pasquim: - Eu ouvi dizer que você matou um com um soco?

Satã: - Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele tinha que tomar o meu. Ele pegou o meu copo e eu disse pra ele: “olha, esse copo é meu”. Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei pra minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma porção de palavras obicênias (sic), eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, que caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque ele foi pra assistência vivo. (...)


Nenhum comentário:

Postar um comentário