segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Cabo Laurindo foi à guerra, mas só no samba


Escrito por Bruno Hoffmann

18 de julho - dia dos veteranos de guerra


 Wilson Batista

Um personagem inusitado marcou presença na música brasileira em 1943: Laurindo, protagonista da canção homônima de Herivelto Martins composta para aquele carnaval. A música era uma continuação de Praça Onze, que versava sobre a destruição da praça onde aconteciam os desfiles de escolas de samba cariocas. No novo samba, o sujeito subia o morro comemorando: Não acabou, a Praça Onze não acabou / Vamos esquentar nossos tamborins. O nome Laurindo também tinha sido usado num samba de Noel Rosa na década anterior, mas seria a partir de Herivelto que começaria a inspirar outros compositores.

Mas afinal, quem é Laurindo? Ninguém. O cidadão nunca existiu, mas caiu – não se sabe bem por quê – nas graças dos sambistas da época. Principalmente nas de Wilson Batista, que o transformou num diretor de bateria da Mangueira que abandonou as atividades carnavalescas para lutar na Segunda Guerra Mundial. É o que narra Lá Vem Mangueira: Lá vem Mangueira / Sem Laurindo na frente da bateria / Perguntei: Conceição, o que aconteceu? / Laurindo foi pro front, este ano não desceu. Só que Wilson tratou de dar um final feliz para o soldado. Em Cabo Laurindo, parceria com Haroldo Lobo, o pracinha voltava intacto do campo de batalha, “coberto de glória, trazendo garboso no peito a cruz da vitória”.

A história não para por aí. Haveria ainda uma terceira canção, Comício em Mangueira, dessa vez uma parceria com Germano Caetano. A letra e a melodia são emocionantes. A música conta sobre um discurso do soldado logo após a volta triunfante: Houve um comício em Mangueira / O cabo Laurindo falou / Toda escola de samba aplaudiu / Toda escola de samba de samba chorou / “Eu não sou herói” / Era comovente a sua voz / “Heróis são aqueles que tombaram por nós”.

Não faltou quem acreditasse que Laurindo existisse de fato. Menos o compositor Zé da Zilda, que tratou de desmascarar o impostor. Ao som de tamborins, afirmou que o sujeito é tratado como herói, porém “nem saiu de Niterói”. E que sua única participação na guerra foi ficar “na retaguarda aplaudindo a nossa gente”.

Depois de tantas músicas, nem Wilson Batista suportava mais ouvir sobre Laurindo. Chegou a planejar assassiná-lo num crime passional. O cabo seria encontrado morto numa viela do morro da Mangueira. Mas a canção nunca saiu. Não havia mais como tirar o herói que nunca existiu da música popular brasileira.

Lá vem Mangueira

(Haroldo Lobo – Jorge de Castro – Wilson Batista)

Lá vem Mangueira!
Outra vez descendo o morro
Com harmonia
Lá vem Mangueira!
Sem Laurindo na frente
Da bateria
Perguntei:
Conceição, que aconteceu?
Laurindo foi pro front
Esse ano não desceu

Mandei perguntar
Sem ele aqui
A escola de samba podia sair?
Ele respondeu:
Podem ensaiar
Porque o povo precisa sambar

Comício em Mangueira

(Germano Augusto e Wilson Batista)

Houve um comício em Mangueira
e o cabo Laurindo falou,
toda escola de samba aplaudiu, é,
toda escola de samba chorou.
Eu não sou herói,
era comovente a sua voz,
heróis são aqueles
heróis são aqueles que tombaram
que tombaram por nós. (Bis)

Houve missa campal
bandeira a meio pau,
toda escola de samba rezou.
Laurindo então lembrou os nomes
dos sambistas que tombaram:

Mangueira tomou parte na vitória
Mangueira, mais uma vez na história. (Bis) 

Cabo Laurindo

(Haroldo Lobo / Wilson Batista)

Laurindo voltou
Coberto de glória,
Trazendo garboso no peito
A Cruz da Vitória.
Oi! Salgueiro, Mangueira,
Estácio, Matriz estão agindo
Para homenagear
O bravo cabo Laurindo!

As duas divisas que ele ganhou, mereceu.
Conheço os princípios
Que Laurindo sempre defendeu.
Amigo da verdade,
Defensor da igualdade.
Dizem que lá no morro
Vai haver transformação.
Camarada Laurindo,
Estamos à sua disposição!

Entrevista com Cristina Buarque*

E sobre o Cabo Laurindo?

Cristina:

‒ Comecei a catar essa história por curiosidade de saber quem foi o Cabo Laurindo. Li, acho que em um livro sobre o Wilson Batista, que esse personagem que aparece em muitas músicas não existiu na verdade. Eu estava cantando um samba desses e o Xangô da Mangueira perguntou “Quem é esse Laurindo? Nunca conheci esse cara! Isso é invenção!” A primeira música em que se falou de um cara chamado Laurindo foi em “Triste cuíca”, que é um samba de trinta e poucos, do Noel. E o Wilson Batista, em quarenta e não sei quantos, falava que o Laurindo havia ido para a Guerra. E aí fiquei procurando... Haviam dito que existia um samba em que o Wilson queria matar o Laurindo porque ele não aguentava mais a história dessa figura. Iria matá-lo num crime passional na Mangueira. Ele ia cair na ribanceira, não-sei-o-quê. Fiquei procurando em toda a discografia do Wilson Batista, pelos nomes, pelas datas, tentando descobrir isso, mas não achei. Então gravei nesse disco do Wilson Batista uma sequência do Laurindo, que vai e volta da guerra.

Sampaio:

 Com “O comício em Mangueira!”

Cristina: - É! E quem fez muita música falando em Laurindo foi o Herivelto Martins. Até no livro sobre o Wilson Batista, o autor diz que ele se gabava por ser o compositor que mais falava do Laurindo, mas acho que já encontrei mais músicas do Herivelto. [risos] Uma amiga minha do Rio, a Teresa Cristina, está fazendo uma pesquisa sobre Zé da Zilda. Ela achou um samba que eu tinha lido nesse livro, um samba que o Zé da Zilda fez para gozar o Wilson Batista. Diz que o Laurindo havia ido para a guerra, mas ficou lá atrás. [risos] Como é que é? [canta] “Conversa Laurindo / peço que não leve a mal / você não foi onde estava o rival / anda dizendo que lutou como herói / e no entanto nem saiu de Niterói / Aproveitou a nossa vitória / E assim conseguiu o seu nome na História / Agora vejo você falando que viu a cobra fumando / Lá na linha de frente / Nem eu nem você fizemos nada / Ficamos na retaguarda / Aplaudindo nossa gente.” [risos] É muito bom, né?! E agora o Hermínio me deu uma gravação da Isaura Garcia - ele está catando umas coisas da Isaurinha Garcia - em que aparece esse samba do Wilson Batista, de querer matar o Laurindo, só que não está no nome do Wilson Batista e é anterior ao “Cabo Laurindo”. Encontram o Laurindo morto. É um samba bonito pra caramba! Ele apareceu morto na ribanceira ou no morro da Mangueira. Então deve ser esse samba. Agora, não sei se é do Wilson Batista. Está em nome de outra pessoa, mas não me lembro agora.

Zeca:

 Ou roubaram a autoria ou a ideia?

Cristina:

‒ É, ou - como o Wilson Batista era malandro pra caramba, de repente já existia o samba e ele... Mas existe esse samba que fiquei procurando para botar no CD. Inclusive não obedece a uma seqüência cronológica, já que ele foi gravado antes do "Comício em Mangueira", que é da época da guerra. Esse é de 41, acho. Quer dizer, mataram o Laurindo, e depois de morto, ele foi para a guerra!

Tacioli:

 - Dá para fazer uma biografia do Laurindo.

Cristina:

‒ É, virou uma brincadeira, um fez um samba sobre o Laurindo, [canta] "Laurindo desce o morro gritando / Não acabou...", isso é Herivelto. Aí outro fez mais um samba, e assim começou esse negócio sobre o Laurindo, que é um cara que nunca existiu! [risos]

Zeca:

 Laurindo não é um nome comum, não é um João.

Cristina:

‒ É! E esse “Comício em Mangueira” é um negócio emocionante, a volta dele, o discurso, as pessoas chorando. E é tudo mentira! [risos]


* Maria Christina Buarque de Holanda (São Paulo, 23 de dezembro de 1950), mais conhecida como Cristina Buarque, é uma cantora e compositora brasileira. É filha do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda e irmã de Chico Buarque, Miúcha e Ana de Holanda.



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