quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Diálogo entre dois chatos



– Querido, você me acha bonita?

– Eu não diria bonita, pois se trata de um conceito adotado pelas classes dominantes para classificar animais humanos dentro de padrões de beleza culturalmente pré-estabelecidos.

– Isto quer dizer que sou feia?

– Comesticamente diferente é o termo mais adequado.

– Amor, você ainda me ama?

– O amor é um sentimento inventado pela burguesia com intuito de subjugar o individuo, em um único modo de pensar da sociedade, tirando-lhes a razão e o senso crítico.

– E daí?

– Daí que nutro por você um sentimento de co-participação em interesses de ordem habitacional, econômica e sexual.

– O quê? Quer dizer que você me quer como faxineira e prostituta

– Não se diz faxineira, e sim higienizadora ambiental. E tratar parceiras sexuais alugadas como prostitutas não é politicamente correto.

– Você deve estar louco!

– Emocionalmente fora do padrão.

– Bem que me avisaram quer você era um chato!

– Chato não, pessoa interessante que pensa de maneira diferente.

– Como fui cega...

– Desprovida de capacidade visual é o mais correto.

– Não sei por que casei com você!

– Você não sabe porque se submeteu a uma prostituição oficializada.

– Idiota!

– Pessoa com ideia fixa.

– Pra mim chega! Vou procurar um amante que me queira.

– Você não precisa recorrer a esse tipo de relacionamento com padrão não convencional, nós ainda podemos partilhar de uma coexistência saudável como duas pessoas com referências diferenciadas da cultura dominante.

– Prefiro conviver com um lavador de carros a continuar com você!

– Sua preferência em manter coabitação de caráter afetivo com um especialista em aparências de veículos, não lhe da o direito de comparar opções de meio de sobrevivência alternativo com o meu comportamento que se diferencia dos dogmas do status-quo.

– Ah, por que você não pode ser uma pessoa normal?

– A normalidade é uma convenção imposta.

– Chega, não aguento mais! Quero te ver morto!

– O que você deseja e transformar-me num individuo metabolicamente inviável.

– Vou pegar meu revólver que está no criado-mudo, ou melhor, sobre o auxiliar doméstico oralmente prejudicado e vou te dar um tiro!

– Você não teria coragem de atirar, ou será que teria?

– Perdão, querido, eu não queria te matar, eu sou uma burra!

– Não tem nada não, querida, você é apenas uma pessoa com uma lógica particular... Fui...





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