domingo, 2 de outubro de 2016

No vídeo


(Flávio José Cardozo)




O homem vai indo ligeiro para a reunião decisiva. Se tudo der certo, sai candidato à Assembleia Legislativa. Para tanto, basta que o Peixoto se entenda com o Afonso e o Afonso não se desentenda com o Paulico e o Paulico concorde com o Beneval e o Beneval não discorde do Gracindo e o Gracindo não negue aquilo que o Albano pede e o Albano aceite aquilo que o Olegário impõe. Fácil, fácil, mais fácil que isto só roubar de cego ou de mulher velha. É sentar à mesa e acertar os ponteiros, vai pensando o homem. Mas o pensamento é bruscamente cortado por uma repórter de TV, que faz uma gravíssima pesquisa de opinião pública.

‒ O que é que o cavalheiro está achando do outono?

Espera aí. O sujeito está indo aflito pela rua, a caminho de um encontro partidário do qual pode sair praticamente deputado e vem a mocinha indagar o que ele acha do outono! Terá por acaso ouvido isso mesmo?

‒ Sim, sim, o cavalheiro tem alguma opinião sobre o outono?

Espera aí de novo. Deboche não. O sujeito vai correndo para uma sessão da maior seriedade, capaz de lhe abrir notáveis horizontes, é barrado por uma meninota que nem sabe pedir licença e ela tem ainda a coragem de perguntar se ele pode dar alguma opinião sobre o outono, como se fosse possível um homem chegar aos quarenta e tantos outonos e não ter nada a dizer sobre o outono! A vontade é responder umas bobagens daquelas que a gente só diz quando está queimando nos tamancos, mas é claro que não vai perder a elegância diante de uma moça. Claro que não. Ainda mais diante da televisão. Sim, sim, ainda mais diante da televisão. Logo mais milhares de catarinenses estarão vendo sua imagem e ouvindo sua opinião sobre o outono. Serão milhares, centena de milhares. Pensando bem, que candidato jogaria fora tão linda oportunidade?

‒ E então? ‒ insiste a entrevistadora, que cismou mesmo em saber o que ele pensa sobre a árdua questão do outono. Então o homem decide. Vai falar, vai caprichar. O assunto é pequeno, mas vai falar. Acerta a garganta, arruma a gola da camisa, encara o olho da câmera, responde com voz funda, doutrinal:

‒ O outono? O outono, catarinenses, é um maravilhoso cataclismo. Um cataclismo primordial da natureza. Se eleito for, tudo farei na Assembleia pelo nosso outono. Obrigado.

À noite, ele se vê no noticiário. Olha para a mulher. Comovida, ela diz que é uma pena aqueles burros não decidirem nunca se ele sai ou não candidato: tem tanta presença, fala tão bonito.

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Flávio José Cardoso

(Lauro Müller-SC, 2.11.1938 - )


Flávio José Cardoso nasceu em Lauro Müller, Santa Catarina, em 1938. Frequentou a Faculdade de Filosofia da UFRGS e de Comunicação Social da PUC-RS. Foi chefe do Departamento Editorial da Editora Globo (RS), diretor industrial da IOESC e diretor de artes da FCC.

Manteve por vários anos coluna de crônica diária no jornal "Diário Catarinense" (SC). Recebeu as seguintes premiações: Concurso Universitário de Contos (Porto Alegre, DCE,1965); Concurso Nacional de Contos, (Florianópolis, Prefeitura Municipal,1967); I Concurso Nacional de Contos (Curitiba, Governo do Paraná, 1968); Concurso Remington de Literatura (Rio, 1977).

A maioria de seus textos tem por cenário a Ilha de Santa Catarina e, mais especialmente, o universo dos pescadores e praieiros. Contador de histórias bem arquitetadas que se desenvolvem de modo direto, objetivo, Flávio José Cardoso cria os seus ambientes e personagens com uma linguagem, colorida, rica de humor e malícia,

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