sábado, 22 de outubro de 2016

Truques e astúcias do bom escritor



Jorge Luiz Borges revelou alguns de seus truques: “O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras extravagantes; intercalar num relato rasgos circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que se a realidade é precisa a memória não o é; narrar os fatos (isso aprendi em Kipling e nas sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente; recordar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las.”


No seu livro A vida de escritor Gay Talese usa todos os truques, costura textos e velhas histórias. O resultado é saboroso. O livro é uma peça poderosa e inteiriça, escrita pelo filho que se inspira no pai alfaiate:

“Ele fazia terno ponto por ponto, evitando o uso de uma máquina de costura, porque queria sentir a agulha em seus dedos ao trabalhar um corte de seda ou lã, e avançava a uma velocidade de lesma na costura de um ombro ou de uma manga. Se qualquer trabalho seu não alcançava o nível que ele definia como perfeito, punha-o de lado e recomeçava. Ele esperava criar a ilusão de uma roupa inconsútil, alcançar a expressão artística com agulha e linha.”

Em seguida à apuração, escrever não é menos penoso: “Produzo texto com facilidade comparável a de um paciente que expele pedra pelos rins” – conta Gay Talese.

A propósito de truques e astúcias, Nelson Werneck Sodré recolheu as artimanhas de Konstantin Paustovsky, que também “expelia pedras pelos rins” para escrever:


“Uma comparação deve ser precisa como uma régua de cálculo e natural como o perfume do feno. Sim, esqueci de dizer que, antes de eliminar as escórias verbais, divido o texto em frases ligeiras. O mais possível de pontos! Essa é uma regra que incorporaria em lei do Estado, para uso dos escritores. Cada frase corresponde a um pensamento, a uma imagem, não mais. Assim, não tenha medo dos pontos. Talvez, minhas frases sejam muito curtas. Isso se explica, em parte, pela minha asma. (...) Esforço-me para banir do manuscrito quase todos os particípios e gerúndios, e não deixo senão os mais indispensáveis. Os particípios tornam a língua angulosa, sombria e matam a melodia. Rangem como carroças que rodam sobre um piso de pedras. Empregar três particípios numa frase leva à morte do estilo... o gerúndio é, apesar de tudo, mais ligeiro do que o particípio. Confere, às vezes, à língua algo aéreo. Mas o abuso do gerúndio a torna flácida e esganiçante. Considero que o substantivo não exige senão um adjetivo, o melhor escolhido. Só um gênio pode se permitir dois adjetivos para o mesmo substantivo. Em prosa, o traço deve ser firme e nítido como uma gravura.”

Essa receita tem tudo a ver com os truques de Borges – evitando sinônimos e preferindo palavras habituais, entre outras confessadas – e de Gay Talese – construindo textos sem costuras aparentes como fazia seu pai com os ternos – expelindo as pedras que vestirão com graça a elegância suas histórias.

Depois de horas nesse suplício, “diariamente, quase sempre sem domingos”, Talese tem encontrado distração jantando fora em restaurantes movimentados, que não por acaso são cenários centrais do livro: “extensões do proscênio, palcos de tramas e improvisações, de encontros românticos e relacionamentos ilícitos”. Nessas incursões cotidianas, Talese acredita ter descoberto os ingredientes secretos de todos os restaurantes: “Esperança, confiança e otimismo. A esperança de que as pessoas gostem do que é servido. A confiança em que reconheçam o trabalho e paguem a conta. E o otimismo de supor que o investimento seja compensador e recompensador, não só aos donos do restaurante”.

Na verdade, são os mesmos ingredientes que o obstinado Gay Talese utilizou para produzir o esplêndido livro Vida de escritor.


(Partes do livro “Memória do Anonymus Gourmet”,
de J. A. Pinheiro Machado)



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