domingo, 20 de novembro de 2016

O mais belo futebol da Terra


*Nélson Rodrigues




Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: ‒ “Quem ganha amanhã?” Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: ‒ “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter.”

Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros: ‒ não temos caráter. Se ele fosse mais compassivo, diria: ‒ “O brasileiro é um mau-caráter.” Vocês entenderam? O mau-caráter tem caráter, mau embora, mas tem. Ao passo que, segundo meu colega, o brasileiro não tem nenhum. Pois bem. No dia seguinte há o jogo e, no seu primeiro lance, Garrincha sai driblando russos e quase entra com bola e tudo.

Vejam: ‒ diante do Brasil, a Rússia perdeu antes da luta. Bastou um momento de Mané para liquidá-la. Mas o que ainda me espanta é a frase do companheiro: ‒ “O brasileiro não tem caráter.” Essa falta de autoestima tem sido a vergonha, sim, tem sido a desventura de todo um povo. Ganhamos em 58, ganhamos em 62. Depois da Suécia e do Chile, seria normal que retocássemos um pouco a nossa imagem. Mas há os recalcitrantes. Outro dia, um colega puxou-me para um canto. Olha para os lados e cochicha: ‒ “Não somos os melhores.” E repetiu, de olho rútilo e lábio trêmulo: ‒ “Não somos os melhores.” E por todas as esquinas e por todos os botecos há patrícios vendendo impotência e frustração.

Quando o escrete partiu [para o México] levando vaias jamais cicatrizadas, vários jornais fizeram uma sinistra impostura. A seleção ia para a guerra. Uma Copa é uma guerra de foice no escuro. Mas parte da nossa imprensa pôs a boca no mundo: ‒ “Humildade, humildade!” Eu pergunto: ‒ o que é o brasileiro? O que tem sido o brasileiro desde Pero Vaz de Caminha? Vamos confessar a límpida, exata, singela verdade histórica: ‒ o brasileiro é um pau de arara. Vamos imaginar esse pau de arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica.

E súbito encosta uma Mercedes branca, diáfana, nupcial. O cronista esportivo, que a dirige, incita o pau de arara: ‒ “Seja humilde, rapaz, seja humilde!” Vocês percebem a monstruosidade? Não basta ao miserável a sarna, nem a rapadura. Ainda lhe acrescentam a humildade. Certos rapazes da imprensa não perceberam que a humildade é defeito de reis, príncipes, duques, rainhas. Há pouco tempo, o papa assim se despediu de uma senhora brasileira: ‒ “Reze por mim”, implorou Sua Santidade. Podia fazê-lo porque era a maior figura da Igreja.

Outro exemplo: ‒ a mulher bonita. Conheci uma que era linda, linda. Quase uma Ava Gardner ou mais do que a Ava Gardner. Quando o marido entrava, ela se lançava não aos seus braços, mas aos seus pés. E fazia apenas isto: ‒ beijava um sapato do marido e, depois, o outro sapato. Também podia fazer isso porque era maravilhosa. Por onde passava ia ateando paixões e suicídios. A humildade era a sua vaidade de mulher bonita.

Passo da mulher fatal ao escrete. Um escrete é feito pelo povo. E como o povo o fez? Com vaias. Nunca houve na Terra uma seleção tão humilhada e tão ofendida. E, além disso, os autores das vaias ainda pediam humildade. O justo, o correto, o eficaz é que assim incentivássemos a seleção de paus de arara: ‒ “Tudo, menos humildade! Seja arrogante! Erga a cabeça! Suba pelas paredes! Ponha lantejoulas na camisa!”

Chamo os nossos jogadores de paus de arara sem nenhuma intenção restritiva. O pau de arara é um tipo social, humano, econômico, psicológico tão válido como outro qualquer. Tem potencialidades inéditas, valores ainda não realizados.

Estou dizendo tudo isso na véspera, exatamente na véspera, de Brasil x Itália. É a finalíssima. Vejam vocês: ‒ o escrete negado não três vezes, mas mil vezes foi vencendo os seus adversários, um por um, não deixando pedra sobre pedra. Diziam que os europeus não deixam jogar. Pois bem: ‒ quando se trata do Brasil, todo mundo o deixa jogar.

Foi assim com a Tchecoslováquia, a Inglaterra, a Romênia, o Peru e o Uruguai (2). O espectro de 50 está mais enterrado do que sapo de macumba. Bem que a pobre Inglaterra tentou o diabo para que o Brasil não jogasse. Mas vocês se lembram do nosso gol? Vejam quantos jogaram. Primeiro, Paulo Cézar passou a Tostão. E Tostão resolveu jogar em cima dos ingleses. Em vez de passar de primeira, deu-se ao luxo voluptuoso de driblar um inimigo; mas era pouco para a sua fome, e driblou outro inimigo. Podia passar. Mas Tostão preferiu enfiar a bola por entre as pernas do terceiro inimigo. Adiante estava Pelé. E o estilista estende a Pelé. Cercado de ingleses por todos os lados, o semidivino crioulo toca para Jairzinho. Este podia ter atirado de primeira. Não: ‒ achou que devia driblar mais outro inglês. E só então sua bomba foi explodir no fundo das redes.

Por que os ingleses não nos impediram de jogar? E, realmente, foi um gol feito com tão amorosa paciência, com tão fino lavor e inexcedível virtuosismo. O leitor há de perguntar: ‒ “Mas como, se os ‘entendidos’ diziam que o futebol brasileiro estava mais obsoleto do que o guarda-chuva do senador Paulo de Frontin?” Realmente, os “entendidos” tudo fizeram para acabar com o nosso craque. Queriam que nós imitássemos os defeitos europeus. Queriam tirar do nosso futebol toda a magia, toda a beleza, toda a plasticidade, toda a imaginação. Faziam a apologia do futebol feio. Era como se estivessem apresentando o corcunda de Notre Dame como um padrão de graça e eugenia.

Mas a famosa velocidade está a merecer um capítulo especial. Com a maior solenidade, os “entendidos” acusavam o nosso futebol de lento. E o que se vê na Copa é esta coisa infinitamente patusca: a morosidade inteligentíssima dos brasileiros derrubou a velocidade burríssima dos europeus. Finalmente, diante dos resultados concretos, o povo não lê mais os “entendidos”. Desde a Tchecoslováquia, aconteceu o cínico e deslavado milagre: nunca houve um escrete tão amado. Por outro lado, cada vitória faz a cidade explodir. E um dos nossos jornais tem a coragem de chamar a festa gigantesca de relativo carnaval.

Observem agora o que o escrete fez por nós. Há pouco tempo o brasileiro tinha uma certa vergonha de ser brasileiro. Conheço um patrício que andou ensaiando um sotaque para não trair a sua nacionalidade. Agora não. Agora acontece esta coisa espantosa: ‒ todo mundo quer ser brasileiro. O país foi invadido por brasileiros, ocupado por brasileiros. Dizia-me o Francisco Pedro do Coutto: ‒ “Nunca vi tantos brasileiros.” E outra coisa: ‒ as mulheres estão mais lindas, e os homens, mais fortes, e há uma bondade difusa, volatilizada, atmosférica. Jamais se cumprimentou tanto. E como sorrimos uns para os outros.

Apenas 24 horas nos separam da finalíssima. Quem jogará por nós é o melhor escrete da Copa. Enquanto os outros dão botinadas, o brasileiro faz a arte que os “entendidos” negam e renegam. Vocês devem ter visto, ontem, o teipe de Inglaterra x Alemanha. O campo era varrido de correrias irracionais. Vale tudo, do gogó para cima. Vinte e dois homens, e mais o juiz, e mais os bandeirinhas, e aquela fauna triste de patadas.

Que falso futebol, que antifutebol. Amanhã, sim, amanhã o mais belo futebol do mundo jogará contra a Itália. E quando acabar o jogo vocês verão subir o nome do Brasil como um formidável berro em flor.
  

O Globo, 20/6/1970


*Nélson Rodrigues (1912-1980)
foi o mais importante dramaturgo brasileiro.



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