sábado, 19 de novembro de 2016

Os amigos de Hitler


Os amigos de Adolf Hitler têm má memória, mas a aventura nazista não teria sido possível sem a ajuda que deles recebeu.

Como os seus colegas Mussolini e Franco, Hitler contou com o pronto beneplácito da Igreja Católica.

Hugo Boss vestiu o seu exército.

Bertelsmann (criador do Círculo de Leitores) publicou as obras que formaram os seus oficiais.

Os seus aviões voavam graças ao combustível da Standard Oil [hoje Exxon e Chevron] e os seus soldados deslocavam-se em caminhões e jeeps da marca Ford.

Henry Ford, autor desses veículos e do livro "O Judeu internacional", foi a sua musa inspiradora. Hitler agradeceu-lhe condecorando-o. Condecorou também o presidente da IBM, a empresa que tornou possível a identificação dos judeus.

Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazista.

Joe Kennedy, pai do presidente, era embaixador dos Estados Unidos em Londres, mas mais parecia embaixador da Alemanha. E Prescott Bush, pai e avô dos presidentes, foi colaborador de Fritz Thyssen, que pusera a sua fortuna ao serviço de Hitler.

Deutsche Bank financiou a construção do campo de concentração de Auschwitz.

O consórcio IGFarben, o gigante da indústria química alemã, que passou depois a chamar-se BayerBasf ou Hoechst, usava os prisioneiros dos campos como coelhos-da-india e, além disso, utilizava a sua mão-de-obra. Esses operários escravos produziam de tudo, incluindo o gás com que os iriam matar.

Os prisioneiros trabalhavam também para outras empresas, tais como Krupp, Thyssen, Siemens, Varta, Bosch, Daimler BenzVolkswagen e BMW, que eram a base econômica dos delírios nazistas.

Os bancos suíços ganharam rios de dinheiros comprando de Hitler o ouro das suas vítimas: as suas joias e os seus dentes. O ouro entrava na Suíça com uma assombrosa facilidade, enquanto a fronteira estava fechada a pedra e cal para fugitivos de carne e osso.

Coca-Cola inventou a Fanta para o mercado alemão em plena guerra. Nesse período, também a Unilever, a Westinghouse e a General Electric multiplicaram os seus investimentos e lucros na Alemanha. Quando a guerra terminou, a empresa ITT recebeu uma indenização porque os bombardeamentos aliados tinham danificado as suas fábricas na Alemanha.


Eduardo Galeano

(Uruguai, 1940) Fragmento de Espejos:
Una historia casi universal  Siglo XXI Ed.
(Madrid, México, Buenos Aires, 2008)


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