quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Blocos do Rio de Janeiro



Nomes de blocos esbanjam criatividade de duplo sentido


Especialista em gaiatice como ele só, o carioca põe a cabeça para bolar os trocadilhos mais inusitados na hora de botar os blocos na rua. É extensa e divertida a lista dos nomes engraçadinhos, abusados e divertidos: Vem Cá Me Dá, Que Merda É Essa?; Senta Que Eu Empurro; Só o Cume Interessa; Calma, Calma, Sua Piranha; Balança Meu Catete ou Vai Tomar no Grajaú já conquistaram um lugar cativo neste abecedário fanfarrão.

Apesar do duplo sentido evidente, tem muita gente que jura que a origem vai além de triviais pensamentos sórdidos. O Vem Cá Me Dá, que anima o carnaval da Barra há 14 anos, por exemplo, é uma homenagem ao enredo “Para com isso, dá cá o meu”, do Império Serrano, em 1988. Recheado de uma mordaz crítica política, o hino da agremiação de Madureira tinha um refrão que dizia assim: “Dá cá o meu / Dá cá, dá cá o meu / O povo carioca cobra aquilo que perdeu”.

‒ O nome tem vários significados. Pode ser vem cá me dar um beijo, ou um abraço. O que muita gente não sabe é que surgiu de uma referência a um samba-enredo ‒ diz uma das fundadoras e organizadoras do bloco, Miriam Constantini.

Como não é ruim da cabeça nem doente do pé, Miriam sabe que é impossível escapar das brincadeiras, principalmente entre os amigos. Ela conta já ter vivido várias situações inusitadas:

‒ Um dia um amigo me questionou: “Como vou convidar a minha nora para ir ao Vem Cá Me Dá? Não vai dar certo né?” Realmente é uma situação engraçada ‒ ri.

Outro nome que figura nos mais criativos, o Só o Cume Interessa é o agito formado por... montanhistas.

‒ A nossa intenção era reunir os amigos para pular carnaval já que, naquele ano, todos estariam no Rio. O objetivo de todo montanhista é chegar ao cume. E não teve como deixar passar o trocadilho. Todos brincam e levam para o outro sentido ‒ comenta Flávio José Peixoto, um dos que estão sempre buscando o cume.

Tem ainda o Virilha de Minhoca, o Enxota Que Eu Vou e o Senta Que Eu Empurro. Criado em 2007, este último é formado por amigos cadeirantes e deficientes visuais.

‒ A brincadeira surgiu de forma inusitada. Uma psicóloga que trabalhava com a gente e que é deficiente visual, era doida para sentar em uma cadeira de rodas. Quando ela foi realizar essa vontade, um outro amigo gritou: “Senta que eu empurro!”. Aí não teve jeito, nasceu o nome do bloco que tem a ver com a nossa deficiência, mas, ao mesmo tempo. tem duplo sentido. Quer coisa melhor para o carnaval? Ficou perfeito! ‒ vibra uma das responsáveis, Ana Cláudia Monteiro, que é cadeirante.

Como boa parte dos organizadores trabalha com cinema, a sugestão não poderia ser outra: Quero Exibir o Meu Longa é um nome recente na extensa lista dos blocos da cidade.

‒ No ano passado, quando criamos o bloco, fizemos umas claquetes de brincadeira com trocadilhos cinematográficos e percebemos que o nome não tinha nenhum trocadilho carnavalesco ou duplo sentido. Eu joguei a ideia do nome Quero Exibir o Meu Longa no Twitter e o pessoal curtiu ‒ lembra Gustavo de Brito Colombo.

Ele comenta ainda que a ideia, a princípio, era brincar e “alfinetar” o mundo da sétima arte, mexendo com filmes famosos, outras produtoras e figuras públicas.

‒ Muita gente diz que é cineasta, mas não consegue produzir ou exibir seu filme, ou ainda prefere dizer que é cineasta, mas não está nem aí para o filme em si. Queríamos fazer uma crítica ‒ defende Colombo, adiantando um trechinho do hino do bloco: “Eu mato, eu mato, quem roubou minha ideia pra fazer um filme chato”.

Mas se engana que é doce a vida que tem tenta manter os trocadilhos de pé ‒ no bom sentido, é claro. A turma do iPad Que Eu Dou tentou fazer uma reunião no ano passado e não conseguiu, por falta de patrocínio. Neste ano, optaram por desistir, momentaneamente, do sonho.

‒ O iPad Que Eu Dou sairia na Rua Henrique Novaes, em Botafogo, em frente à Casa da Matriz. Não tivemos patrocínio. A gente já tinha uma marchinha pronta e tudo. Era uma brincadeira para estimular o pessoal que é muito ligado aos computadores ‒ diz Lincoln Aguiar, profissional de tecnologia da informação, de 29 anos.

(Do jornal O Globo, fevereiro de 2014)



Nomes de blocos de carnaval do Rio Janeiro

01. É pequeno, mas vai crescer.
02. Já comi pior pagando.
03. Nunca mais eu bebo ontem.
04. Eu não venho mais aqui
05. Cutucano atrás
06. Suvaco do Cristo...
07. Quem num guenta bebe água.
08. Eu choro curto, mas Rio Comprido.
09. Vai tomar no Grajaú
10. Unidos da pastilha frouxa
11. Regula, mas libera
12. Mostra o fundo que eu libero o benefício
13. Melhor ser bêbado do que ser corno
14. Senta que eu empurro
15. Largo da mulher, mas não largo da cerveja
16. Dois pra lá dois pra cá
17. Te vejo por dentro, sou da radiologia
18. Quero exibir meu longa
19. Me beija que eu sou cineasta
20. Desliga da Justiça
 21. Puxa que é peruca
22. Deixa a língua no varal
23. Meu amor, eu vou ali
24. Largo do Machado, mas não largo da cerveja
25. Escorrega na baba do quiabo
26. Espreme que sai
27. Vestiu uma camisinha listrada e saiu por aí
28. Brochadão, a hora é essa
29. Calma, calma, sua piranha
30. Katuca que ela pula
31. O Pluto é filho da Pluta
32. Perereka sem dono
33. Rola preguiçosa. Tarda, mas não falha
34. Vem ni mim que sou facinha
35. Nem Muda nem sai de cima
36. O negócio tá feio e o teu nome tá no meio
37. Virilha da minhoca
38. Vem cá me dá
39. Só o cume interessa
40. Balança meu Catete
41. Enxota que eu vou
42. É mole, mas estica
43. Quem vai, vai. Quem não vai, não cagueta!
44. Perereca nervosa
45. Já que tá dentro, deixa.
46. Toco cru pegando fogo!
47. Pinto sarado
48. Carvalho em pé
49. Se me der eu como
50. Encosta que ele cresce

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